Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

TORNEIRAS DE ITAPETIM ESTÃO SECAS HÁ 2 ANOS

ITAPETIM - As torneiras de Itapetim estão fechadas desde 20 de setembro de 2013, dia em que as barragens de Caramucuqui e Mãe D’Água secaram. As famílias vivem da passagem do carro-pipa, que enche 42 caixas instaladas pela prefeitura. A fila é formada cedo; os lugares, marcados por baldes. Quando o veículo chega, tem início o vaivém de gente. Os mais abastados colocam até 30 baldes. Não há revezamento com os que têm dois ou três para encher. Volta e meia sai briga. 

Clarissa Thomé, ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2015 | 16h53

Grávida de 9 meses, a agente de saúde Adriana Leite Menezes, de 34 anos, costuma leva um balde na cabeça. Outro vai na mão da filha, de 3 anos. “Tem de começar cedo, fazer o quê?”, diz Adriana, com humor. Fábio Santos, de 42 anos, já foi “pipeiro”, como são chamados os motoristas dos caminhões de água. “As pessoas entravam na frente do caminhão. ‘Deixa um pouco de água aqui, moço’. Mas às vezes o carro já estava vazio. É de cortar o coração.”

Além das caixas, há poços comunitários. Um deles fica na frente da casa de Francisca Mota Diniz, de 71 anos. “É a sorte da gente”, diz. A água, salobra, serve para lavar roupa, dar descarga no banheiro, limpar a casa. Ela paga R$ 100 para encher a caixa d’água com 4 mil litros - é para beber e cozinhar. Dura três meses. Às vezes menos, quando o filho Fernando, de 48 anos, precisa de ajuda. “Não compro porque não tenho salário”, afirma ele. A seca acabou com os empregos. A prefeitura é a principal empregadora - são 700 funcionários. Para evitar demissões, o prefeito Arquimedes Machado (PSB) cortou 30% o salário - de R$ 10 mil para R$ 7 mil - e reduziu custeio de secretarias.

A seca transformou a paisagem. O Rio Pajeú já não despeja no São Francisco, como cantava Luiz Gonzaga no clássico Riacho do Navio. O gado pasta no que foi o leito, onde cresceram juremas. Essas árvores, já sem folhas, dominam as margens das estradas. Um ou outro juazeiro mais resistente enfeita o cenário. Não há placas que indiquem que o rio famoso corria naquele trecho. Quem não conhece a geografia do lugar, passa pelo terreno árido sem se dar conta de que já foi possível nadar ali.

A seca mudou a decoração das casas. Baldes e tonéis ocupam salas e cozinhas. Caixas d’água de mil litros - compradas a R$ 350 - estão nas garagens e nas calçadas. A agricultora Maria do Socorro Ribeiro, de 49 anos, tem uma dezena de vasilhames na casa e no quintal. A maioria sem tampa. Em abril, o índice de infestação do Aedes aegypti chegou a 13% dos domicílios. Uma ideia simples fez baixar para 2,4%: milhares de piabas foram colocadas nos reservatórios. Os peixes se alimentam das larvas do mosquito.

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