Três trajetórias trançadas

Serra, Dilma e Marina foram idealistas, estudaram bastante, superaram dissabores. Cada um a seu modo

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

José Serra teve de deixar o Brasil e continuar seus estudos no Chile. Dilma Rousseff aderiu à luta armada e foi presa e torturada. Marina Silva precisou sair da floresta e estudar no Mobral antes de defender os seringueiros. Os três principais candidatos que chegam hoje à eleição presidencial têm muitas diferenças de origem, estilo e carreira. Mas têm em comum um passado de situações difíceis e de experiências no que então se chamava de "esquerda engajada" - e suas biografias traduzem boa parte da história do Brasil dos últimos 50 anos. O que o Estado ouviu de alguns dos principais assessores e amigos dos candidatos foi que, se os ideais de juventude já estão distantes, as personalidades ainda guardam muitos de seus traços.

1960

Inauguração de Brasília

Quando a capital federal foi inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek, o candidato do PSDB, José Serra, tinha 18 anos e estava no primeiro ano de Engenharia Civil na Escola Politécnica, a Poli. Também experimentava um curso de teatro e participou como ator da peça Vento Forte para Papagaio Subir, dirigida por Zé Celso. Descrito por amigos como um jovem que gostava de mulheres e de dançar, era também um dos alunos mais aplicados. Nascido em 19 de março de 1942, na Mooca, desde menino era leitor de biografias de políticos e veloz com as contas e equações. O pai, Francesco, italiano da Calábria, queria que o filho único passasse mais tempo na barraca de frutas do Mercado Municipal, mas a mãe, Serafina, e a avó, Carmela, o queriam concentrado nos estudos. Uma escrivaninha é o presente de infância mais lembrado. Serra retribuiu o gesto chegando até a Poli.

Dilma Rousseff, nascida em 14 de dezembro de 1947, ia completar 13 anos e era estudante do Colégio Nossa Senhora do Sion, em Belo Horizonte. Seu pai, um imigrante búlgaro chamado Pétar Russév, que era do Partido Comunista em seu país natal, trabalhava para uma siderúrgica alemã, Mannesmann, e mantinha a mulher, Dilma, e seus três filhos numa casa ampla, com três empregadas, aulas de francês e piano. "Dilminha" não era nem a melhor aluna nem a mais bonita, mas era conhecida por sua personalidade e inteligência. "Ela sempre chamou a atenção por essas qualidades", diz Carlos Araújo, seu companheiro durante cerca de 30 anos (de 1969 a 2000) e pai de sua única filha, Paula, hoje com 34 anos. "Ela teve ótima formação, era leitora ávida e aos 15 anos já estava no movimento estudantil."

Marina Silva tinha 2 anos. Nascida em 8 de fevereiro de 1958, recebeu o nome de Maria Osmarina da Silva. Tanto seu pai, Pedro, como sua mãe, Maria, tinham o sobrenome "da Silva". Viviam no seringal Breu Velho, em Bagaço, a 70 km de Rio Branco, no Acre, e de seus 11 filhos, 8 sobreviviam, sem acesso a esgoto e escola, no meio da Floresta Amazônica. "Ela é da floresta ainda", diz o jornalista Elson Martins, que convive com ela desde os tempos de Chico Mendes. O assessor da candidata, Antonio Alves, concorda: "Ela é muito apegada à sua identidade."

1964

Golpe militar

Quando os militares derrubaram João Goulart (Jango), em 31 de março de 1964, a vida de Serra já estava bastante mudada. E ameaçada. Desde 1962, era membro destacado da Juventude Universitária Católica. No mesmo ano tinha sido escolhido como presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) e, no ano seguinte, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Tinha também formado a Ação Popular, outro agrupamento católico de esquerda, inspirado em pensadores como Teilhard de Chardin e ao lado de nomes como Betinho. A ascensão de Serra como líder estudantil era tal que, no famoso comício de Jango em louvor a Getúlio Vargas, em 1963, Serra foi convidado a discursar antes do presidente - e ainda o criticou por querer intervir em administrações estaduais. "Serra gosta de provocar, de polemizar", conta Gilda Portugal Gouveia, sua amiga e hoje funcionária da Secretaria de Educação. "Ele deixa os assessores aflitos com perguntas, até poder chegar a uma decisão."

Jango, na ocasião, teria dito a Serra que "havia generais loucos" atrás do jovem rebelde, que já era fichado pelo Dops, o "departamento de ordem" criado justamente por Getúlio durante o Estado Novo. No ano seguinte, em outro comício, em 13 de março, ele novamente discursou antes do presidente e defendeu suas reformas de base, como a agrária. Dado o golpe, duas semanas depois, Serra procurou abrigo na casa de Tenório Cavalcanti, o "homem da capa preta", e depois na Embaixada da Bolívia, até que teve de sair do País. Foi para Bolívia e França, voltou clandestinamente em 1965 e se escondeu na casa da atriz Beatriz Segall. Mas foi preso durante uma reunião e decidiu se exilar no Chile, assim como Betinho, Fernando Gabeira e Almino Afonso. Ali retomou os estudos acadêmicos, mas trocando a Engenharia pela Economia.

Dilma também tinha mudado muito. Era estudante do Colégio Estadual Central, onde participava de movimentos estudantis, e ingressou na Política Operária (Polop), onde conheceu José Aníbal, hoje do PSDB e coordenador da campanha de Geraldo Alckmin ao governo paulista. "Ela me apoiou em eleições, éramos da mesma turma política", conta Aníbal. "Era inteligente, um pouco cabeça-dura, mas repensava as coisas, trabalhava os assuntos, tinha grande capacidade de concentração." Em pouco tempo, o movimento se dividiria entre duas linhas, a dos que queriam o socialismo por via democrática e a dos que o defendiam pela luta armada.

Marina, a essa altura, ainda é uma criança, muito distante das tertúlias políticas e muito próxima das mazelas nacionais. Acompanhava o pai até o trabalho nos seringais, sofria com sarampo, malária e leishmaniose, não ia à escola. O pai a ensinou a fazer contas, mas Marina só seria alfabetizada aos 16 anos, depois de trocar a floresta pela cidade.

1968

Ato institucional nº 5

Quando o regime militar radicalizou ainda mais, ao decretar o Ato Institucional n.º 5 (AI-5) em dezembro de 1968, Serra vivia no Chile, onde se casara um ano antes, com a psicóloga e bailarina chilena Monica, com quem teria dois filhos, Verônica e Luciano. A vida amorosa de Dilma também estava em transformação: no mesmo ano, celebrou casamento civil com Claudio Galeno Linhares, com quem ficaria pouco mais de um ano, até conhecer Araújo. Mas sua vida política é que estava se transformando radicalmente. Em 1968, aderiu ao grupo Comando de Libertação Nacional (Colina) depois de ler o livro de Régis Debray, Revolução na Revolução, que defendia a guerrilha como forma de criar focos de resistência que ao fim culminariam numa troca de regime. "Eu não acreditava nisso", diz Aníbal, "porque achava que a população não iria na mesma direção".

Foi nesse período que o geógrafo e ex-ministro Carlos Minc, hoje candidato a deputado federal no Rio, conheceu Dilma. "Estive com ela em duas ou três reuniões", conta Minc, "e também a conhecia dos textos que ela escrevia; todos escrevíamos muitos textos". Dilma era responsável, entre outras atividades, pela edição do jornal do movimento, O Piquete. "Mas ela não era uma dirigente, não tinha tanta presença assim. Eu diria que era um quadro intermediário. Não era de ação, era mais intelectual, mais de bastidores, de formular conceitos. O Araújo tinha mais peso do que ela."

Araújo e Dilma se conheceram no início de 1969, quando Dilma já cursava a Faculdade de Economia da UFMG. Araújo havia estado em Cuba e foi o mentor da fusão da Colina com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização dirigida por Carlos Lamarca, criando assim a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares). Lamarca, por sinal, também teria dito sobre Dilma que a achou "metida a intelectual". Araújo diz que ela "era muito competente, muito preparada, apenas fazia o trabalho político urbano, de formulação de conceitos". Diz ainda que ela tinha papel "na cúpula" do grupo. Em julho do mesmo ano, Aníbal afirma ter ouvido de Dilma que eles estavam armando algo "grande". Logo depois, a VAR-Palmares conseguiu invadir a casa da amante do ex-governador paulista Adhemar de Barros e levar US$ 2,5 milhões do cofre. Dilma e Minc negam ter participado diretamente do assalto.

Ao lado de sua hoje assessora Maria Celeste Martins, Dilma foi para São Paulo, depois de seguidas trocas de endereço com Araújo. Na capital paulista, elas foram responsáveis por esconder armamentos da guerrilha. Enquanto isso, a repressão oficial aumentava. Em 16 de janeiro de 1970, Dilma, armada, foi presa e levada para a Operação Bandeirante (Oban), centro de investigações e torturas do Exército. Foi submetida a choques elétricos, paus de arara e outros métodos. Ficou presa até 1972, quando foi solta com 10 kg a menos e problemas na tireoide. Partiu para Porto Alegre, onde Araújo estava preso, e durante dois anos esperou sua libertação, fazendo visitas e dando aulas para poder passar mais tempo com ele.

1979

Anistia política

Quando o presidente general João Baptista Figueiredo promulgou a Lei da Anistia, em 1979, cancelando punições aos que cometeram "crimes políticos" desde 1961, Serra já voltou ao Brasil como mestre pela Universidade do Chile e doutor pela Universidade Cornell (Estados Unidos). Tinha sido obrigado a trocar o Chile pelos EUA depois do golpe militar de Augusto Pinochet, em 1973. Colaborador do governo destituído, de Salvador Allende, professor de instituições como a Cepal (ligada à ONU) e tendo ajudado no abrigo a perseguidos políticos, não era bem visto pelo novo governo e foi preso no aeroporto. Depois de um período na Embaixada da Itália, decidiu partir para os EUA, onde estudou também no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, entre 1976 e 78. De volta, deu aulas na Unicamp, fez pesquisa no Cebrap, com patrocínio da Fundação Ford, e trabalhou na campanha do amigo Fernando Henrique Cardoso ao Senado.

Dilma, mãe desde 1976, também retomou os estudos, agora de Ciências Econômicas na UFRGS, e em seguida fez estágios em instituições como o Iepes, ligada ao então MDB. Em 1978, começou a acumular créditos no mestrado da Unicamp, mas jamais o concluiu, embora o site do Ministério da Casa Civil já tenha estampado a informação de que ela seria mestre e doutora. Seu marido, Araújo, se aproximou de Leonel Brizola, que planejava recriar o PTB de Getúlio e terminou fundando o PDT. Dilma foi uma das primeiras filiadas, mas não pensava em se candidatar, apenas colaborava com o partido e trabalhou como assessora da Assembleia Legislativa no início dos anos 80. "Ela nunca pensou nisso", diz Araújo, "acho que sempre sentiu o compromisso de me apoiar".

Marina vivia um período definidor em sua história. Em 1973, aos 15 anos, adoeceu e teve o diagnóstico de malária, mas em realidade estava com hepatite. Passou a morar na capital acreana, onde foi acolhida pelo convento Servos de Maria, do bispo d. Moacyr Grecchi, hoje arcebispo de Porto Velho (RO), que a descreve como "tímida e recatada". Cursou então o Mobral, programa de alfabetização do governo militar. Trabalhou como doméstica. Participou de atividades em Comunidades Eclesiais de Base. Casou pela primeira vez em 1980, com Raimundo Souza, com quem tem dois filhos, Shalon e Danilo. E, em 1981, aos 23 anos, chegou à Faculdade de História da UFAC. Nesse momento, já estava ligada ao grupo de Chico Mendes, fundador do PT no Acre e líder do Sindicato Xapuri, de seringueiros. "Mas ela já apareceu brilhando com luz própria", diz Elson Martins, "com uma sensibilidade muito forte, como um Chico Mendes de saias".

1985

Abertura democrática

Quando o movimento das Diretas Já tomou as ruas do Brasil, em 1984, Serra era secretário de Planejamento do governador Franco Montoro e foi chamado para participar da elaboração do programa econômico de Tancredo Neves ao lado de Celso Furtado e Helio Beltrão. Tancredo morreu ano seguinte, e seu vice José Sarney assumiu. Em 1986, Serra se candidatou a deputado federal e foi membro da Assembleia Constituinte, colaborando com 130 emendas parlamentares. No mesmo ano, 1988, fundara com FHC, Montoro, Mario Covas e outros membros do PMDB um partido, o PSDB, pelo qual se elegeu deputado e senador nas eleições seguintes. Como parlamentar, já ficou conhecido por seu estilo, por não dormir quase nada e se meter em quase todos os temas. "Ele pega rápido assuntos em que não é especialista, como os jurídicos", diz o jurista Luiz Antonio Marrey, chefe da Casa Civil do governo estadual, com quem Serra despachava todo dia antes da campanha. "Tem enorme capacidade de trabalho. É comum que me envie e-mail às 3h, 3h30 da madrugada."

Em 1984, Dilma não subia aos palanques das Diretas Já, mas trabalhava em campanhas como as dos pedetistas Alceu Collares e Aldo Pinto, além das de seu marido; Araújo foi deputado estadual de 1982 a 90. O primeiro cargo executivo de Dilma foi como secretária municipal da Fazenda, em 1988, por indicação de Araújo. O prefeito, Collares, elogiou seu trabalho quando ela deixou a função para coordenar a campanha de Araújo à Prefeitura de Porto Alegre; seu sucessor na secretaria, Políbio Braga, disse tê-la encontrado num "caos", sem sequer um relatório. Com a derrota do marido, ela virou diretora da Câmara Municipal em 1989, mas foi demitida porque, segundo o presidente, Valdir Braga, "houve um problema com o relógio de ponto", ou seja, ela se atrasava.

Marina Silva era professora e afiliada ao PT quando, em 1985, Chico Mendes criou a CUT do Acre e, pouco a pouco, se tornou uma voz do ambientalismo mundial, sendo premiado nos mais diversos países. Marina o acompanhava. Em 1987, ela se casou com um técnico agrícola, Fabio Vaz de Lima, com quem tem as filhas Moara e Mayara. E saiu candidata a vereadora. No ano seguinte, eleita, viveu o trauma do assassinato do amigo Chico Mendes. "Com ele, Marina aprendeu muitas coisas", conta Antonio Alves. "Aprendeu, principalmente, a ouvir todo mundo, sem deixar de mostrar seus sentimentos, e depois decidir. Ela lidera naturalmente, tratando todos de igual para igual, e tem uma vida interior muito rica. Não fica só analisando gráficos."

Outro obstáculo que Marina foi obrigada a transpor surgiu em 1991, quando descobriu que estava contaminada por metais pesados, doença resultante de sua infância nos seringais. Mesmo assim, saiu candidata a senadora em 1994 e foi eleita. Também passou a receber muitos prêmios internacionais. No início da década seguinte, surpreendeu alguns amigos antigos ao se tornar evangélica, da Assembleia de Deus. Antonio Alves, seu assessor, não vê assim: "Acho que o evangelismo foi apenas uma radicalização de sua vivência religiosa. Hoje ela é mais intensa, medita mais, está mais madura. Acho que a doença ampliou sua consciência de que não era dona de sua vida."

1995/2010

Governos FHC e Lula

Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, na esteira do sucesso do Plano Real, o senador Serra se tornou ministro do Planejamento e, no segundo mandato, ministro da Saúde, quando fez algumas de suas realizações mais conhecidas, como o lançamento dos genéricos. Derrotado na eleição presidencial de 2002, foi eleito prefeito de São Paulo de 2004 a 2006 e governador de 2006 até se licenciar para a atual campanha. Em cargos executivos, investiu em obras viárias como Rodoanel e ampliação da Marginal do Tietê e na expansão de linhas de trem e metrô. Os amigos dizem que ele ainda é o mesmo idealista, como servidor público, mas alguém extremamente prático, "que delega e cobra, mas não centraliza", na frase de Marrey.

Nos anos do governo de Fernando Henrique, Dilma trocou o PDT pelo PT, depois de ter sido convidada por Olívio Dutra a ser secretária de Energia, Minas e Comunicação em 1998 e pressionada pelo partido de Brizola a deixar o cargo. Foi nessa condição que teria mostrado a Lula, numa simples reunião em Brasília no final de 2001, que teria conhecimento técnico e vocação política para ser sua ministra de Minas e Energia, em detrimento do físico Luiz Pinguelli Rosa, que tinha uma visão mais estatizante do setor. No primeiro ano de seu segundo mandato, em 2007, com Zé Dirceu fora da vitrine política desde o escândalo do mensalão, Lula já a converteu na mulher-forte do governo, como ministra da Casa Civil e coordenadora das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ela descobriu um câncer linfático em 2009 e passou por quimioterapias, tendo uma ala exclusiva no Hospital Sírio Libanês. E Lula a fez candidata oficial em 2010, na linha "uma mãe que sabe a hora de dar bronca".

Marina também foi chamada para o governo Lula, como ministra do Meio Ambiente, e ficou no cargo de 2003 a 2008, quando o presidente nomeou Roberto Mangabeira Unger para cuidar de um plano para a Amazônia, dizendo "Marina não é isenta", no sentido de que ela não obteria o meio-termo entre a necessidade de grandes obras e a concessão de licenças ambientais - e, por isso, entrara em conflito com a própria ministra da Casa Civil. Em 2009, Marina saiu do PT e ingressou no PV, pelo qual hoje é candidata. A mudança de partido e religião desagradou a alguns companheiros acreanos, mas não mudou sua imagem pública em termos de caráter. "Ela sempre diz que não tem uma causa", conta Alves, "mas a causa é que a tem. Ela não usa máscaras".

Determinados em graus semelhantes, o ex-exilado, a ex-guerrilheira e a ex-seringueira mudaram desde os anos de militância em graus distintos, por caminhos distintos. Hoje seus destinos e o do Brasil se cruzam de novo.

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