Um boné na soleira

Intrigante a conduta do ministro da Defesa, Nelson Jobim: está no governo, é governo, mas não disfarça sua insatisfação com a parte que lhe coube no latifúndio do governo Dilma Rousseff.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2011 | 00h00

Quando se aventa a hipótese de que esteja com vontade de sair, diz que não há nada a não ser mal-entendidos, mas, não demora, faz de novo algum gesto de evidente sinal de desconforto.

E aqui não se trata das críticas duras que Jobim faz ao governo nas reuniões internas do PMDB, porque nessa seara está na companhia da maioria dos ministros do partido. Tomemos apenas o que o ministro da Defesa diz em público.

Aparentemente sem a menor necessidade, e por isso é que os movimentos causam estranheza e suscitam dúvidas sobre o intuito do ministro. Ainda mais tratando-se de um homem afeto a exercícios de lógica, que nada faz sem que tenha em mente a tese, a antítese e a síntese.

Qual o papel, por exemplo, que procura desempenhar quando afirma em solenidade de homenagem ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que uma das melhores características dele era saber se relacionar bem com subordinados, "sem nunca levantar a voz"?

Falou por iniciativa própria sem que a ocasião lhe oferecesse contexto para tal, a não ser o propagado hábito da presidente Dilma de se dirigir a subalternos justamente levantando a voz.

Na época Jobim cuidou de explicar apenas uma parte do discurso. Aquele em que citava Nelson Rodrigues para dizer que no governo de FH os idiotas eram discretos, mas hoje "perderam a modéstia". Alegou se referir a jornalistas. Mas aquela outra parte sobre o tratamento de governantes com subordinados ficou no ar, à disposição da óbvia ilação comparativa.

Mas, tudo bem, passou. Até que em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo Jobim discorre sobre o já sabido: que votou em José Serra na última eleição. Nada demais, em tese. O voto é livre, abre a posição quem quer.

Mas, como diria petista de triste memória, determinados tipos de transparência não denotam inteligência. No caso de Jobim, não se pode falar em insuficiência mental. Sobra-lhe.

Então para que trazer o assunto à baila, se poderia simplesmente invocar o sigilo constitucional do voto e seguir em frente? Não, fez questão de reafirmar uma posição que sabidamente provocaria reações no PT e criaria um inútil mal-estar para o vice-presidente da República, representante do partido de Jobim em governo a que aceitou servir como ministro da Defesa.

Por que passar o recibo da infidelidade partidária? Para exercitar a transparência é que não foi.

O que parece mesmo é que Jobim está com o boné pendurado na soleira da porta, testando a capacidade de resistência da presidente diante de insolências em série.

Quem é quem. Houve um tempo em que o Palácio do Planalto dispunha de um sistema de triagem de biografias de indicados para cargos na administração pública. Funcionava, ou era para funcionar, no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência.

Nunca mais se falou nisso. Mas, agora, quando a presidente Dilma Rousseff diz que vai impor a ficha limpa como pré-requisito para os substitutos dos demitidos do Ministério dos Transportes, valeria a retomada da prática do exame de vidas pregressas antes de o governo oficializar nomeações.

Para todos, os novos e os atuais ocupantes de postos na Esplanada, palácio e adjacências.

Por etapas. A pesquisa que mostra 55% da população contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo pode até parecer um dissenso em relação à decisão do Supremo Tribunal, mas, se a gente olhar direito não necessariamente.

Além de um tanto recente na pauta nacional, o assunto ainda não foi devida e completamente compreendido: boa parte dos que são contra se manifestam na verdade contrários ao casamento gay, tema que não está (ainda) em questão no Congresso ou na Justiça. Para uma opinião pública tida como conservadora, 55% é um porcentual baixo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.