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Um carnaval de black blocs?

Alberto Ikeda*

01 Março 2014 | 16h 09

Temos no País larga tradição de mascarados nessa época

Comumente se reconhece o carnaval como período de desvarios, contestações, críticas, liberalização e inversão das regras sociais, dos costumes, que se revelam em manifestações coletivas, com festas, cortejos de rua, muita música, danças, fantasias, encenações, bebidas e comidas à vontade e, claro, liberdade sexual. Referendando-se nos estudos da antropologia, sobretudo voltados para as sociedades ditas tradicionais, podemos compreender que todos os grupos humanos apresentam momentos "festivos", ritualísticos, que se distinguem ou se opõem aos afazeres do dia a dia, como aparentemente ocorre no carnaval.

Pretende-se sempre a existência social ideal, igualitária, plena, de liberdades, de felicidade, em que os indivíduos vivenciem uma utopia. Ou seja, nos termos do linguajar brasileiro, busca-se "a vida que se pediu a Deus", ou "viver a vida na sombra e água fresca", sem trabalhos e responsabilidades para os adultos nem escola e tarefas para as crianças. O homem pode se vestir de mulher, o pobre pode parecer rico, e, até, sim, o rico pode ser pobre (será que alguém quererá?). Mas tudo apenas temporariamente, claro!

Nessa perspectiva, o carnaval pode, sim, ser considerado também nas sociedades "modernas", salvadas as devidas especificidades, um período de busca da sociedade ideal. Nessa perspectiva, por exemplo, embora não seja o hábito cotidiano das pessoas, flexibiliza-se também o uso de máscaras (apesar da existência de legislações que as proíbem) nas atividades durante o reinado de momo. Mas no Brasil, além do carnaval, temos a presença de mascarados (caretas, na Bahia) em inúmeras festas e manifestações ritual-dramático-musicais, comumente identificados como folclóricos, como no cavalo-marinho do Nordeste e no bumba meu boi do Norte e Nordeste, nas folias de reis de várias regiões, além de outras, e mais especificamente nos cada vez mais organizados e plasticamente sofisticados bandos identificados como bate-bola ou clóvis (clowns), nos subúrbios do Rio, com suas vistosas máscaras e fantasias.

Por sua vez, máscaras se fazem presentes em praticamente todos os grupos humanos, desde os mais tradicionais até as sociedades contemporâneas, em rituais ou festividades, no teatro e até nas cerimônias religiosas. O uso, função e significados delas ocorre de modo diversificado, podendo instrumentalizar a transposição e imitação de personagens mitológicos ou deuses e animais, propiciar a incorporação cênica de personagens, provocar a desinibição do usuário, criticar pessoas e situações, identificar determinado grupo ou pessoa (ou, pelo contrário, não permitir ser identificado, por exemplo, em plena farra, vestido de melindrosa), além de outros aspectos.

De fato, temos no Brasil larga tradição de mascarados, até com pintura facial, no período carnavalesco e fora dele, que ultimamente, no entanto, têm ficado mais restritos como implemento para o entretenimento das crianças, nas ruas, bailes e festas escolares, nos dias do carnaval.

Mas neste ano, pela primeira vez, poderemos ter muitos deles que preocuparão bastante a polícia e as autoridades. São os black blocs, praticantes de passeatas de protesto, com depredações e queima de lojas, equipamentos públicos e privados, sobretudo de bancos, tidos como símbolo máximo do capitalismo, que aparentemente desejam combater. Os confrontos com a polícia são constantes, como já viu até nesses dias pré-carnavalescos em São Paulo. Mas será que eles vão se infiltrar também nos blocos de rua? Ou não quererão misturar a sisudez e a possível seriedade de seus propósitos e princípios políticos com os foliões carnavalescos? Até o momento, isso não aconteceu.

De fato, neste ano, máscaras, de qualquer tipo, até os capuzes ou "toucas ninja" (ou de motoqueiro, comumente usadas por assaltantes), ou, sobretudo, aquelas que aparecem no filme V de Vingança, de James McTeigue, e se disseminaram nos protestos de ruas, ou mesmo um simples lenço ou camiseta cobrindo o rosto, principalmente se for da cor preta, em locais públicos ou em grandes concentrações de pessoas, causarão preocupações e, talvez, até sejam policialmente coibidos.

Se forem foliões, porém, apesar de um ou outro sentido crítico, certamente farão suas "arruaças" sem riscos para ninguém. Sobretudo, buscarão o entretenimento, o prazer físico-emocional-psicológico permitido para alguns dias ou algumas horas, já que se chegará necessariamente na Quarta-Feira de Cinzas, quando, depois do carnaval, o País começará então a funcionar. Mas será que os black blocs trazem mesmo risco para a sociedade ou para os governos, conforme se pretende fazer crer? Parece bastante ingênuo acreditar nisso!

Evoé!!!!! Evoé!!!! Baco!

* Alberto é professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista