Uma aventura musical em São Paulo

Búlgara Irina Kodin, música da Osesp, ficou com medo de SP quando chegou em 97; hoje a considera encantadora

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

28 Outubro 2007 | 00h00

Mais parece um balé. Refletindo a iluminação da Sala São Paulo de um jeito estranhamente hipnótico, os arcos de madeira dos 28 violinos e 14 violoncelos sobem, descem e rodopiam como se participassem de uma coreografia à parte. De uma precisão cirúrgica, treinada à exaustão todo dia, toda semana, a coreografia é parte da ''''química'''' que faz a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) lembrar uma grande família - com o que há de bom e ruim nisso, claro. Vários dos 107 músicos não se falam, outros nem ao menos falam português, alguns namoram com colegas de trabalho, outros evitam ao máximo eventos sociais e só aparecem para tocar... Mesmo assim, quando pisam no palco, todos conversam na mesma nota. Dona de gestos suaves e delicados, sorridente, a violinista búlgara Irina Kodin, de 35 anos, é uma das participantes desse balé. Nascida em Sófia, um das cidades mais antigas da Europa, ela desembarcou em São Paulo em meados de 1997. Justamente quando o maestro John Neschling assumiu o posto de diretor artístico da companhia e começou a reformar a orquestra, contratando os primeiros estrangeiros. ''''Vim sem entender nada da confusão desta cidade, sem falar a língua, apenas pela chance de tocar'''', diz Irina. ''''O choque foi terrível, vou ser sincera. À primeira vista São Paulo é simplesmente assustadora.'''' Mas hoje, dez anos depois, a história de Irina se mistura um pouco com a própria história do renascimento da Osesp. Apontada como a melhor da América Latina e chamada pelo jornal francês Le Monde de ''''milagre musical proveniente de São Paulo'''', a orquestra completou uma década sob direção de Neschling acumulando sucessos. Este ano, todos os ingressos para as 120 apresentações foram vendidos. O número de assinaturas pulou de 2.388 em 2000 para 11.024. E, agora em novembro, o grupo parte para a terceira turnê internacional do ano. Grande parte dos aplausos que a orquestra recebe se deve, na verdade, à dedicação militar e ao esforço sem limite dos músicos e musicistas - um terço deles estrangeiros como Irina, que deixaram para trás famílias, amigos e tradições pelo amor à música. ''''Quando a música é a parte principal da sua vida, você acaba abrindo mão de outras coisas para vivenciá-la ainda mais'''', diz. ''''Quem percebeu minha vocação foi a minha avó. Ela me levava para passear em um parque que ficava de frente para uma escola de música. E, em vez de brincar, eu ficava lá parada, ouvindo. Tinha apenas 5 anos, mas em poucos meses já tinha ganhado um violino e entrado na escola de música.'''' Na adolescência, na Bulgária, Irina deixou a música clássica um pouco de lado e virou fã do heavy metal do Metallica. ''''Todo mundo passa por essa fase, né? Mas a minha vida sempre esteve no violino. Por isso, quando abriram seleção para a Osesp, achei que estava na hora de novos desafios. Fiz o que tinha que fazer... meti a cara. Pensei: ''''Se é para ficar, vou enfiar o pé''''.'''' Logo que desembarcou, Irina tirou carta de motorista e resolveu comprar um carro. Se era para conhecer a cidade, que fosse na marra (''''nunca bati o carro, só para constar''''). Para aprender a língua, não entrou em escola e muito menos abriu um livro de gramática - Irina ia sempre ao cinema ver filmes legendados e aprendeu a escrever simplesmente lendo os balões de diálogos das revistinhas da Turma da Mônica. Olhando para trás, Irina diz que não poderia ter escolhido um caminho melhor. Apaixonou-se pela cidade (''''sempre vou a exposições, faço curso de mergulho, estudo alemão no Instituto Goethe... o que tiver de legal eu topo!'''') e pela Osesp (''''não toco por rotina, tenho paixão por isso''''). De quebra, apaixonou-se por um colega de trabalho, o paulistano Paulo Calligopoulos, que toca violino o palco a dois passos de distância dela. Os músicos, diga-se de passagem, casam agora no Natal, em Sófia. ''''Engraçado isso, meu destino estava aqui em São Paulo'''', diz Irina. ''''Nunca achei que ia namorar um colega. A gente fica procurando a felicidade, achando que ela está longe, mas ela estava do meu lado.''''

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