Uma visita para melhorar o filme da ''City of God''

Para comunidade da Cidade de Deus, passagem de Obama pela favela é a chance de amenizar a imagem de violência deixada pelo filme de 2002

Márcia Vieira / RIO, O Estado de S.Paulo

16 Março 2011 | 00h00

A visita de Barack e Michele Obama será uma espécie de redenção para os moradores da Cidade de Deus. O filme dirigido por Fernando Meirelles em 2002 deu fama mundial à favela. Mas as cenas de guerra do tráfico em City of God, que teve quatro indicações ao Oscar, também a lançaram um estigma sobre a comunidade. "Viramos símbolo de lugar violento", acredita Josias Oliveira, vice-presidente da Associação de Moradores, nascido na favela há 43 anos. "O nome Cidade de Deus correu o mundo, mas a comunidade ficou parada. Não serviu para melhorar nada."

A chegada do primeiro presidente negro americano à favela, no domingo, pode dar uma sacudida no lugar. "Torci muito para ele vir. É um negão bonito, da mesma tinta que eu. Vai ser muito bem-vindo", vibra Regina Antunes, de 59 anos, dona de uma creche que funciona em frente à quadra onde Obama e Michele vão assistir às apresentações de crianças e adolescentes da Central Única de Favelas (Cufa).

Na instituição criada pelo rapper MV Bill e pelo empresário Celso Athayde, a ordem é não confirmar a visita de Obama. Ontem, a sede da Cufa estava praticamente deserta. O recesso do carnaval só acaba na segunda-feira. "Mas domingo estaremos funcionando excepcionalmente. Estaremos na quadra com atividades de basquete, skate, teatro e grafite", avisa Athayde. "Caso eles venham, estaremos preparados." Obama será recebido por MV Bill.

Laje. Ontem, agentes da segurança de Obama estiveram na Cidade de Deus. Escolheram até os pontos onde vão colocar os agentes. Obama deve descer de helicóptero - em local a ser definido - e seguirá de carro até a favela. Os seguranças decidiram não colocar grades para separar o presidente do povo.

"Disseram que vão colocar gente aqui na minha laje. Eu gosto muito do presidente, mas na minha laje ninguém sobe", insiste Regina. Moradora da favela há mais de 40 anos, ela terá uma visão privilegiada, bemem frente à quadra. "Vou assistir de camarote. Sábado vou fazer a unha, botar meu aplique no cabelo e chamar minhas amigas para assistir tudo daqui."

O entorno do campo de futebol já começou a ser limpo. O problema é o rio, poluído pelo esgoto lançado ali sem parar. Sacos de lixo e pedaços de sofás pioram a situação. Há dois dias, boiava o corpo de um cachorro morto.

A Cidade de Deus, onde vivem 38 mil pessoas segundo o Censo de 2000, tem a Unidade de Polícia Pacificadora mais problemática do Rio. O pior episódio após a pacificação, em fevereiro de 2009, ocorreu em março de 2010. Em represália à prisão em flagrante de Leandro de Oliveira da Silva, pais e primos do traficante incendiaram um micro-ônibus, ferindo 13 pessoas. A pacificação enfrenta resistência nas localidades mais pobres da favela, como a região do Caratê. Mas Obama passará bem longe de lá.

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