Veni, vidi, vendi

Barack Obama foi aplaudido 23 vezes durante seu discurso no Theatro Municipal, no Rio. Citando Jorge Benjor, Paulo Coelho e fazendo referência ao filme Orfeu Negro, ganhou a simpatia entusiasmada da elite carioca.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Não havia sido diferente em Brasília. A políticos no Palácio do Planalto e a empresários no Itamaraty, o presidente norte-americano esbanjou charme e eloquência. Encaixou o discurso certo para cada público. Arrancou risadas um par de vezes, e uma dezena de aplausos.

Só não disse nada de concreto. Apoio para o Brasil obter a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU? Fim do visto para entrada de brasileiros nos EUA? Suspensão das barreiras comerciais a produtos brasileiros no mercado norte-americano? Não foi desta vez.

O objetivo de Obama no Brasil ele deixou claro no discurso que fez para o seu eleitorado, pouco antes de embarcar para Brasília. A palavra que mais repetiu foi "jobs". Tradução: as importações brasileiras, explicou, geram 250 mil empregos nos EUA.

Candidato à reeleição, o presidente norte-americano precisa reativar a economia dos EUA e, para isso, quer dobrar suas exportações. É essencial cativar mercados emergentes como o brasileiro, cuja economia cresce acima da média mundial. Palavras de Obama.

Em tempos de diplomacia comercial, quando presidentes de todos os continentes são mascates das empresas de seu país, Obama foi sincero quando disse aos cariocas que queria oferecer serviços e produtos norte-americanos para as Olimpíadas e para a Copa do Mundo.

Comercialmente, a turnê brasileira de Obama foi um sucesso. Veio, viu e vendeu.

Luz no vapor nuclear. Temendo que a radiação contamine seu território, o opaco regime chinês cobrou mais e melhores informações do Japão sobre o acidente na usina nuclear de Fukushima. Quando o risco é atômico, até quem faz da censura uma política de governo demanda transparência.

Os chineses estavam certos na cobrança, que foi endossada pelos EUA. A empresa responsável pela usina demorou a admitir o tamanho do estrago nos reatores e, assim, aumentou o risco corrido pelos japoneses.

Por isso, antes de o governo brasileiro pensar em construir mais quatro usinas nucleares, deveria pressionar o Senado para desengavetar e aprovar o projeto que garante livre acesso às informações públicas em poder do Estado.

Só assim os vizinhos das usinas, novas e antigas, teriam alguma garantia de que os operadores dos reatores estão contando toda a verdade sobre eles.

Kadafi, o ecumênico. A cada hora após o início dos bombardeios contra a Líbia, Muamar Kadafi atribuía a um ator diferente a responsabilidade pelos ataques. Primeiro, culpou os "sionistas". Depois, disse que a luta era contra os terroristas da Al-Qaeda. Finalmente, chamou os mísseis de "cruzados".

Em sua eloquência metafórica, o ditador conseguiu pôr judeus, islâmicos e cristãos do mesmo lado: contra ele. Nem a ONU conseguiu uma aliança tão ecumênica para apoiar o ataque à Líbia.

Guerra de palavras à parte, os aviões e mísseis dos EUA, França e Itália, entre outros, são eficientes apenas para destruir a infraestrutura, desbaratar a defesa antiaérea, desconectar redes de comunicação e explodir tanques usados por Kadafi.

A eventual derrubada do ditador se dará no solo, para onde nenhum dos países aliados quer mandar tropas. É provável que enviem armas, contando que as forças rebeldes tenham capacidade de usá-las para tirar Kadafi do poder. É um tiro no escuro.

O ditador aposta em uma guerra longa. Sabe, por experiência, que o "cachorro louco" de hoje pode voltar a ser o governante abraçado por Berlusconi anteontem, ou o comprador dos equipamentos nucleares franceses que Sarkozy tanto tentou vender à Líbia em 2007.

Cada dia a mais que Kadafi passe no poder aumentará a oposição à guerra dentro dos países da coalizão. Dá tempo para se questionar os dois pesos e duas medidas: os governos do Iêmen e do Bahrein também atiraram na própria população, sem sofrer sanções militares.

Enquanto isso, os civis líbios estarão no meio do fogo cruzado, ou pior: armados pelos dois lados, trocando tiros entre si.

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