Vídeo revela que filha de Roriz recebeu dinheiro de pivô do ''mensalão do DEM''

Um vídeo em análise no Ministério Público, obtido e divulgado pelo portal do Estado em primeira mão no início da tarde de ontem, mostra a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), filha do ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, junto com o marido, Manoel Neto, recebendo um maço de dinheiro das mãos do ex-secretário de Relações Institucionais do DF Durval Barbosa.

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

05 Março 2011 | 00h00

O vídeo foi gravado na campanha eleitoral de 2006, na sala de Barbosa, delator do escândalo de corrupção conhecido como "mensalão do DEM". O esquema foi desmantelado pela Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, e acabou derrubando o governador José Roberto Arruda, na época filiado ao DEM. Até a descoberta do vídeo, Jaqueline negava com veemência envolvimento dela e do pai no esquema.

As imagens mostram que, depois de guardar o maço na mochila, o casal queixa-se do valor, supostamente abaixo do combinado, e negocia novas contribuições para a campanha de Jaqueline, que então disputava seu primeiro mandato parlamentar.

"Rapaz, não é fácil ser candidato. Resolve isso para mim cara!", apela Neto, ao ser avisado de que a quantia ficaria entre três e cinco remessas e não cinco ou mais, como supostamente combinado. Jaqueline e o marido demonstram satisfação quando veem Barbosa colocar o maço fornido de notas de R$ 100 sobre a mesa.

Mas, com certa arrogância, reclamaram do baixo valor e tratam Barbosa como um empregado relapso. "Ela (Jaqueline) tem razão", diz Neto. "Com isso aí não vai dar para a gente pagar tudo." Mais adiante, Jaqueline explica as dificuldades de campanha e indaga: "Tem possibilidade de você aumentar (o valor) para mim?" O ex-secretário é sucinto: "Vamos ver", responde.

Antes de colocar o dinheiro na mochila, Neto faz um pedido prosaico: "Posso roubar um chicletinho aí?", perguntou.

Negação. Em discurso, em abril passado, Jaqueline Roriz chamou de "cara de pau" a deputada distrital Eurides Brito (PMDB), também flagrada, num vídeo, recebendo propina do esquema do "mensalão do DEM". Eurides alegou que o dinheiro que tinha recebido era do ex-governador Joaquim Roriz, de quem era aliada. O dinheiro seria o pagamento de festas de campanha promovidas pela deputada para a eleição dela e do então candidato ao Senado, Roriz.

Eurides foi cassada após a divulgação de vídeo em que aparece recebendo propina de Barbosa e enfiando o dinheiro numa bolsa de couro.

O 31.º vídeo. Rotulado como "o 31.º vídeo da coleção da corrupção no DF", o flagrante tem 2 minutos e 50 segundos e foi gravado na campanha eleitoral de 2006. Durval Barbosa recebe cordialmente o casal em seu gabinete. Do lado direito da camisa de Manoel, na altura do peito, vê-se um adesivo da campanha de Jaqueline, que disputava uma vaga na Câmara Distrital do DF.

Ao sentar-se, Barbosa fica de costas para a câmera, programada para focar os movimentos de visitantes postados à sua frente. Os três conversam por pouco mais de um minuto, quando Barbosa levanta-se e abre a porta de um cofre atrás de sua mesa, de onde retira um maço de dinheiro. Neto abre a mochila e arremessa o pacote de notas lá dentro. As primeiras investigações indicam que o volume somava em torno de R$ 50 mil.

O vídeo foi gravado quando Barbosa, então diretor da Companhia de Desenvolvimento do Planalto (Codeplan), do governo Joaquim Roriz, filmou, ao longo da campanha de 2006, diversos políticos recebendo bolos de dinheiro. Ao todo, Barbosa, depois de ter negociado com o Judiciário a condição de delator premiado, entregou 30 vídeos à Polícia Federal que ajudaram na investigação do esquema.

O inquérito da Caixa de Pandora, abastecido com esses vídeos, mostra um desfile de políticos que se revezavam em encontros no gabinete de Barbosa para receber propina previamente acertada e transformada em dinheiro de caixa 2 que, segundo as investigações, foi usado na eleição.

Os 30 vídeos, no mesmo cenário da gravação de Jaqueline e Neto, foram exibidos em 2009 e 2010 ao País e revelaram políticos guardando o dinheiro nos bolsos, em pastas, bolsas e até em meias e cuecas. Até agora, as imagens expuseram só um lado do esquema, comandado pelo ex-governador Arruda, preso e afastado do cargo em março de 2010 como "chefe da organização criminosa", especializada em arrecadar propina de empresários que tinham contratos de prestação de serviços e obras com o DF. Ameaçado de ser preso, Barbosa fez acordo e passou a colaborar com a PF no caso.

TRECHOS DA CONVERSA

Manoel - Rapaz, não é fácil ser candidato. Resolve isso pra mim, cara!

Durval Barbosa (à secretária) - Rosilene, depois vê se consegue mais uns três a cinco.

Manoel - Não. Preciso cinco, por favor. Porque isso aí para nós é muito complicado de fazer.

Durval - De três a cinco. Eu falei de três a cinco.

Manoel - Ela tem razão. Com isso aí não vai dar... (inaudível).

Jaqueline - Você ia me ajudar com alguma coisa de estrutura, né?

Durval - Qual a estrutura que você queria? (Após breve silêncio, Durval retoma o diálogo, apontando para a mochila onde Manoel pôs o dinheiro.)

Durval - Você não está vendo isso aí não (dinheiro)? Faz o seguinte, ó. Em vez de conseguir o carro com a empresa... eu conseguiria o dinheiro, você pagaria o carro... e conseguiria o dinheiro. E aquelas pessoas que você queria que pudessem ajudar... no pagamento da... você faz pagamento mensal, né?

Jaqueline - Não tenho ninguém pagando ainda.

Durval - Não tem ninguém? Então você começa a pagar com esse dinheiro (da mochila).

Jaqueline - Você tem a possibilidade de aumentar pra mim?

(...) Tem cinco pessoas que estão nos ajudando enquanto não começa. Não aconteceu nada ainda. Você foi o único, graças a Deus.

Dr. Leomar ficou de me ajudar a encontrar umas pessoas. Até agora nada. Fernando Leite ficou de me ajudar. Até agora nada.

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