''Videoteca da corrupção'' veio à tona antes de operação da PF

Trecho de gravação de 2006 mostra Durval Barbosa dizendo que MP e desembargadores tinham cópia das cenas

Vannildo Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

17 Março 2011 | 00h00

O esquema de corrupção no governo do Distrito Federal, que levou à prisão e queda do ex-governador José Roberto Arruda (ex-DEM), seria conhecido de membros do Judiciário e do Ministério Público pelo menos três anos antes da deflagração da Operação Caixa de Pandora, que investigou a quadrilha em 2009. É o que revela trecho inédito de um vídeo, gravado em 2006 pelo ex-secretário de Relações Institucionais e delator do esquema, Durval Barbosa, obtido com exclusividade pelo Estado.

O vídeo, com 17 minutos, mostra conversa de Durval com a empresária Cristina Bonner, dona da TBA, empresa de informática suspeita de também fazer doações para o caixa de propina coletado pelo ex-secretário em troca de contratos com o governo. "Eu não sou burro!", diz Durval, exibindo sobre a mesa a coleção de vídeos que ele havia gravado com políticos recebendo propina em seu gabinete. Espantada e sem saber que também era filmada, Cristina o aconselha a guardar o material explosivo em local seguro: "Tira isso daqui!".

Mas Durval a tranquiliza: "Não! Isso aqui é cópia... (o original) tá lá no meu sobrinho, tá no Ministério Público. Tem cópia também lá com os desembargadores meus amigos. Isso aqui... tem cópia na família. Eu não sou burro!", reforça. Na sequência, enfático, ele explica as razões da cautela: "Eu vou responder por ladrão? Eu não sou ladrão!".

A fita faz parte da chamada "coleção da corrupção", uma videoteca com dezenas de gravações - 31 delas já divulgadas - feitas em sigilo por Durval Barbosa em 2006, no seu gabinete de presidente da estatal Codeplan. Ele disse à Polícia Federal, em 2009, depois de se tornar réu colaborador da Justiça, que as gravações eram "para proteção pessoal".

Esquema. Os vídeos, que integram os autos do inquérito 650 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), mostram Arruda, parlamentares, secretários e autoridades do DF recebendo maços de dinheiro e colocando as notas em pastas, sacolas, bolsas, mochilas e até em meias e cuecas.

A íntegra da fita com Cristina foi mantida em sigilo e só um pequeno fragmento dela, de dois minutos, foi anexado aos autos da Caixa de Pandora. O restante da fita reapareceu agora. Procurado pelo Estado para comentar o assunto, Durval Barbosa informou que, naquela ocasião (2006), não entregou cópias a desembargadores ou membros do Ministério Público. Disse que usou aquelas palavras que aparecem no vídeo apenas para tentar mostrar prestígio e causar medo na empresária com quem conversava.

Cristina Bonner negou, por meio de sua assessoria, que tenha sido uma das abastecedoras do "mensalão do DEM". Disse ainda que a fita de 17 minutos seria uma "montagem grosseira", feita por uma empresa de Brasília, "possivelmente mancomunada com Durval" e já denunciada à Justiça. Por isso ela se recusa a comentar seu teor.

A empresária fundou a TBA em 1992 e a cresceu quando ganhou exclusividade da marca Microsoft nos negócios com o governo federal e do Distrito Federal. / COLABOROU LEANDRO COLON

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.