Viúva da TAM enfrentou 50 dias sem identificar marido

Lúcia Aquino foi uma das últimas a identificar corpo em 1996

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2028 | 00h00

A funcionária pública licenciada Lúcia Aquino, de 37 anos, pensou que estivesse vivendo a maior dor de sua vida quando recebeu a notícia de que seu marido, o superintendente do Banco Santos Gilberto Alves Aquino Júnior, então com 31 anos, estava entre os passageiros do Fokker 100 da TAM que havia acabado de cair na Rua Luís Orsini de Castro, no Jabaquara, zona sul de São Paulo, em 31 de outubro de 1996. "Abriu uma cratera na minha frente." Mas ela não imaginava o que viria depois. Lúcia não sabia que pouco havia restado do marido - entre as 99 vítimas, foi ele quem teve o corpo mais carbonizado. Fotos, objetos pessoais, alianças, radiografias, relato do dentista sobre a arcada dentária: nada ajudou a reconhecer o corpo de Aquino. Ela só conseguiu enterrar os restos mortais dele 52 dias depois do acidente, após uma longa agonia. Com um bebê de 1 ano e 8 meses no colo (Gabriel, hoje com 12) e uma criança de 3 anos (Felipe, de 15), Lúcia era uma das chamadas viúvas da TAM, apelido criado pelo fato de 79 das 99 vítimas serem homens casados. "O Gilberto ia toda semana para o Rio. Naquela manhã, voltei a dormir depois que ele saiu. Às 8h30, a minha irmã me ligou e perguntou dele. A partir dali, foi o caos", recorda-se. O irmão e o cunhado de Lúcia foram destacados para levar objetos de Aquino para a equipe que fazia o reconhecimento dos corpos. "Levamos o dentista do Gilberto no Instituto Médico-Legal. Nada. Ninguém queria admitir, mas havia sobrado pouco dele." Passados 15 dias do acidente, restavam apenas 4 corpos a serem reconhecidos. "Chamaram as famílias e avisaram que eles estavam carbonizados demais", diz Lúcia. "Falei que o Gilberto era alto, na certa o mais alto dos quatro, 1,87 metro, que tínhamos como fornecer o tamanho do fêmur dele. Mas quem disse que havia restado um fêmur para medir?" Primeiramente, os pais do executivo fizeram o exame de sangue para o reconhecimento de DNA. Mais um tempo de espera e nada. As conclusões do exame eram pouco confiáveis. Foi aí que ela observou algo que seria decisivo na identificação do marido. "Comecei a olhar as mãos do Felipe. Sempre brinquei que eram iguais às do pai, a palma maior que os dedos." No dia 5 de dezembro daquele ano, o IML chamou a funcionária pública e os filhos para coletar o sangue das crianças. Um esquema foi montado na instituição para despistar os repórteres. "Eu não agüentava mais esperar. Queria apenas enterrar o meu marido." Mais 15 dias de espera. Então, Lúcia conta ter tido um "estalo". "Fui ao IML, invadi a sala do diretor e blefei que haviam me ligado de lá dizendo que o corpo havia sido reconhecido", conta. "Ele foi a uma área reservada e voltou dizendo: ?De fato, acabaram de reconhecê-lo?. Foi, para mim, como se ele mesmo tivesse me avisado para ir lá, que ele já estava pronto para nos despedirmos", diz. Foi justamente o DNA de Felipe o responsável pela identificação. Ela mesma escolheu o caixão do marido, comprou um buquê de rosas amarelas - as mesmas flores com as quais ele a presenteava semanalmente - e organizou o funeral. "Soube depois que eu sepultei quatro fragmentos carbonizados do corpo. Mas só assim descansei e tive a certeza de que realmente nossa história juntos havia, enfim, terminado." Lúcia Aquino enfrentou depressão profunda, doença que a levou a uma internação psiquiátrica em clínica de repouso. Ela e os filhos fazem terapia até hoje. Ela não quis se casar novamente. Cria os filhos sozinha. AIRBUS Ela diz ter ficado muito emocionada ao ver as cenas do acidente com o Airbus da TAM. "Não consigo falar disso sem me emocionar. Penso na dor dos parentes", afirma Lúcia. "Acompanho as notícias e parece que as coisas melhoraram. Aprendi com especialistas, na época, que nunca se pode dizer ?não sei? aos familiares. Digam qualquer coisa, menos isso."

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