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Vizinha diz ter alertado PM de que braço de baleada estava fora da viatura

Felipe Werneck - O Estado de S. Paulo

18 Março 2014 | 21h 27

'Só queremos justiça, que a morte da minha mãe não fique impune e não passe em branco', disse a filha Thaís Ferreira da Silva, de 18 anos

A casa da servente Cláudia Silva Ferreira, baleada na manhã de domingo com um tiro no coração e depois arrastada por mais de 300 metros presa a um carro da Polícia Militar, fica no topo do Morro da Congonha, em Madureira, na zona norte do Rio, a cerca de 50 metros do local em que ela foi atingida.

O advogado de um dos três policiais que alegam ter "socorrido" Cláudia, Marcos Espínola, afirmou que ela foi colocada na parte de trás da viatura porque o carro "estava com armamentos no banco traseiro e a viela estreita impedia a abertura das portas laterais". No entanto, passam até caminhões pela Rua Joana Rezende. A mancha de sangue continuava nesta terça-feira no chão.

A vizinha Cristina Ferreira, de 32 anos, afirmou que Cláudia "foi jogada pelos PMs no porta-malas e a mão dela ficou para fora". "Tava todo mundo gritando, avisando, mas os PMS empurraram, deram dois tiros para o alto e saíram de ré." Espínola alegou que "diante da reação dos moradores, revoltados com a situação, os policiais tiveram que sair rápido do local, o que pode ter ocasionado no momento seguinte a abertura do porta-malas onde a vítima estava sendo socorrida".

Filhos e sobrinhos de Cláudia mostravam nesta terça-feira, 18, quinze cápsulas de fuzil recolhidas na manhã de domingo, que foram espalhadas no tapete da sala. "Só queremos justiça, que a morte da minha mãe não fique impune e não passe em branco", disse a filha Thaís Ferreira da Silva, de 18 anos. "Os PMs não queriam deixar a gente catar as cápsulas, mas os vizinhos cataram."

No carnaval, uma das filhas de Cláudia, Pamela, de 9 anos, usou como fantasia um uniforme do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM. "Ela pediu para a mãe, que fez o gosto da filha. Era uma que ela tinha condição de comprar", disse o pedreiro Júlio Cesar Silva Ferreira, de 41 anos, irmão de Cláudia.

Ele voltou a afirmar que não havia criminosos armados no local quando sua irmã foi baleada. "Havia uns garotos fumando maconha na quadra, mas não tinha ninguém armado. Os PMs chegaram pela mata. Não houve troca de tiros, eles chegaram atirando. Ela estava com um copo amarelo de café na mão. Ia comprar pão e marcar de fazer a unha e o cabelo, como todo domingo."

Cláudia morava com o marido, os quatro filhos e quatro sobrinhos. Seis dormem na sala, que tem dois sofás. A festa de aniversário de dez anos dos gêmeos Pamela e Pablo está mantida para domingo. Éverton Ferreira da Silva, de 16 anos, segurava uma foto da mãe e o uniforme que ela usava para trabalhar, da empresa Nova Rio. "Eu amava muito ela. Não queria ter perdido a minha mãe assim." Nesta terça, uma igreja ofereceu uma cesta básica para a família. "Ninguém do governo procurou a gente", disse o irmão de Cláudia.

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