Wanderley dos Santos vai assumir Casa de Rui Barbosa

Um dos maiores cientistas políticos brasileiros, o pesquisador Wanderley Guilherme dos Santos assumirá a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa decidido a lhe devolver a tranquilidade - que considera abalada pela crise aberta pelas críticas do quase presidente da instituição, sociólogo Emir Sader, à ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

04 Março 2011 | 00h00

"Meu plano fundamental é que a Casa volte a ter a sobriedade que sempre a caracterizou", disse ele, em tom cauteloso e sem se referir diretamente a Sader, cuja nomeação foi abortada pela presidente Dilma Rousseff depois que ele, entre outras coisas, chamou Ana de "meio autista". Anunciado oficialmente ontem pelo Ministério da Cultura como novo presidente, Wanderley Guilherme disse ainda não ter projetos definidos para a fundação, mas garantiu que não fará modificações profundas.

"Planos de grandes mudanças teve Juscelino Kubitschek, mas ele podia ter. Eu sou um ser humano bastante consciente da minha limitação e finitude. Até porque tenho que ter uma intimidade com a Casa que não tenho", afirmou. As declarações cuidadosas e a postura modesta são o inverso de atitudes de Sader, que, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse querer transformar a Casa de Rui Barbosa em um espaço de discussão do Brasil e criticou Ana de Hollanda e o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil.

"Projeção problemática". Com o convite, feito anteontem, por telefone, a ministra tenta encerrar a crise que envolveu o ministério desde a divulgação das declarações de Sader. Por seu perfil, o cientista político não pode ser considerado representante da "direita" a quem o sociólogo atribui sua queda.

Para o novo escolhido, a polêmica deu à Casa de Rui Barbosa uma "projeção problemática em excesso" para a "sobriedade que caracteriza a instituição". Para ele, é preciso dar "continuidade a um trabalho extremamente bem considerado e bem respeitado" da Casa - outro sinal contrário ao de Sader, que prometia mudanças profundas. "O que há a fazer é simplesmente continuar o próprio trabalho da tradição", ressaltou o cientista político, que considera os profissionais da fundação "o melhor celeiro para a continuidade e para a inovação" da atividade da Casa.

"A fundação é uma instituição dentro de um ministério bastante complexo", prosseguiu. "É uma instituição que, para seus funcionários e pesquisadores, é 100% da vida deles, claro, mas dentro do ministério e de um ministério dentro de um governo, (a repercussão da polêmica) é uma coisa fora de proporção. Isso atrapalha, certamente atrapalha, a tranquilidade das pessoas que lá trabalham", resumiu.

"É uma instituição que conheço, mas preciso me familiarizar. Conheço como admirador e frequentador, agora é diferente, preciso conhecer por dentro."

Wanderley Guilherme disse conhecer a ministra há muito tempo e ter-se sentido "bastante gratificado" pelo convite. Segundo ele, a ministra já marcou conversa para fazer uma discussão mais aprofundada sobre a Casa. Graduado em Filosofia e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Wanderley Guilherme tem 74 anos. Também integrou o Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, o Iuperj.

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