EDMAR BARROS/FUTURA PRESS
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Xerifes, sicários e traficantes da FDN estão entre os presos transferidos

PF já havia identificado a atuação de quatro dos 17 detentos; eles são descritos como criminosos de 'alta periculosidade' e que agem com 'extrema violência'

Marco Antônio Carvalho e Marcia Oliveira, Especial para o Estado

11 Janeiro 2017 | 12h38
Atualizado 11 Janeiro 2017 | 16h27

MANAUS E SÃO PAULO - "Xerifes" da Família do Norte (FDN) - facção que ordenou o massacre nas cadeias do Amazonas -, homens acusados de assassinato em nome da organização criminosa e traficantes que agem nas fronteiras estão entre os 17 detentos que começaram a ser transferidos nesta quarta-feira, 11, de prisões do Estado para penitenciárias federais. Eles foram retirados do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e da Unidade Prisional do Puraquequara, em Manaus, onde foram mortos na semana passada 60 presidiários; também foram retirados presos do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat).

Ao menos quatro dos 17 já haviam sido identificados pela Polícia Federal na Operação La Muralla, que desarticulou parte da quadrilha. No relatório da investigação, é dado destaque para Márcio Ramalho Diogo, o Garrote, transferido nesta quarta, descrito como “perigoso membro da FDN, com diversos antecedentes criminais e reconhecido no mundo do crime pela extrema violência e crueldade com que atua”. Segundo a PF, ele era um “xerife” no Compaj, homem de confiança de outro integrante da cúpula, Carlos César Libório, o Cubiu. 

A investigação mostrou que Diogo era responsável pelo transporte de grandes cargas de drogas da fronteira para Manaus, tendo sido preso em abordagem policial. Ele, de acordo com a polícia, executava ordens e fazia cumprir as regras de disciplina imposta pelas lideranças, “sendo inclusive o responsável por aplicar penas aos detentos que variavam de lesões graves ao homicídio”. Na cadeia, a PF disse que ele se converteu em braço direito de José Roberto Roberto Fernandes Barbosa, o Pertuba, um dos criadores da FDN.

Também transferido nesta quarta, André Said de Araújo foi descrito pela polícia como homem de confiança do fornecedor de drogas colombiano Daniel Rodrigues Orosco. “(André) se encarregava de toda a parte operacional do grupo relacionada ao recebimento, armazenamento e distribuição de drogas, armas e dinheiro”, descreveu os agentes no relatório da operação. 

Lenon Oliveira do Carmo, que está no grupo dos 17 retirados do Compaj, também é considerado de “alta periculosidade” e importante membro da FDN, ligado ao grupo do “xerife” Alan Castimário. Além dele, Eduardo Queiroz de Araújo estaria ligado aos assassinatos praticados a mando da facção, “sendo sicário de total confiança de Alan Castimário e José Roberto”.

“Foi o executor de diversos homicídios realizados a mando das principais lideranças, especialmente no episódio que terminou conhecido como fim de semana sangrento”, disse a Polícia Federal.

Entre a tarde de sexta-feira, 17 de julho de 2015, e a manhã da segunda-feira seguinte, uma onda de crimes foi registrada em Manaus. Trinta e oito pessoas foram assassinadas no que seria uma ação orquestrada pela FDN para matar membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) e da facção Esparta 300.

Investigação. O pedido de transferência ocorreu a partir de informações reunidas pela força-tarefa criada para investigar o massacre no Compaj. A Polícia Civil amazonense informou usar desde o princípio do inquérito instaurado para apurar o caso imagens de câmeras de segurança do circuito interno do Compaj. Segundo os policiais, havia imagens que mostravam os assassinatos e ajudariam a identificar os diretamente envolvidos. Não foi informado nesta quarta se os 17 responderão pelos 56 homicídios do local, ou se o número de envolvidos nos crimes pode aumentar. 

Márcio Ramalho Diogo, Janes do Nascimento Cruz, Cláudio Dayan Felizardo Belfort, André Said de Araújo, Florêncio Nascimento Barros, José Bruno de Souza Pereira, Gileno Oliveira do Carmo, Demétrio Antonio Matias, Wilson Guimarães Fernandes, Fábio Palmas de Souza, Lenon Oliveira do Carmo, Heliuton Cabral do Carmo, Eduardo Queiroz Araújo, Reginaldo Muller Neto, João Ricardo Santos da Costa, Adailton Farias da Silva e Rivelino de Melo Muller foram os 17 detentos transferidos.

MASSACRES EM MANAUS E BOA VISTA

Um sangrento confronto entre facções no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, deixou 56 mortos entre a tarde de 1º de janeiro e a manhã do dia 2. A rebelião, que durou 17 horas, acabou com detentos esquartejados e decapitados no segundo maior massacre registrado em presídios no Brasil - em 1992, 111 morreram no Carandiru, em São Paulo. Treze funcionários e 70 presos foram feitos reféns e 184 homens conseguiram fugir. Outros quatro presos foram mortos no Instituto Penal Antonio Trindade (Ipat), também em Manaus. Segundo o governo do Amazonas, o ataque foi coordenado pela facção Família do Norte (FDN) para eliminar integrantes do grupo rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC). 

Cinco dias depois, o PCC iniciou sua vingança e matou 31 detentos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (PAMC), em Boa Vista, Roraima. A maioria das vítimas foi esquartejada, decapitada ou teve o coração arrancado, método usado pelo PCC em conflitos entre facções. Com 1.475 detentos, a PAMC é reduto do PCC, que está em guerra contra a facção carioca Comando Vermelho (CV) e seus aliados da FDN. Roraima tem 2.621 presos - 900 dos quais pertenceriam a facções, a maioria do PCC. No total, 27 facções disputam o controle do crime organizado nos Estados.

A guerra de facções deixou o sistema penitenciário em alerta, os e governadores de Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul pediram ajuda do governo federal com o envio da Força Nacional. Amazonas foi o primeiro Estado a receber. A crise é tamanha que, segundo o Conselho Nacional de Justiça, são necessários R$ 10 bilhões para acabar com déficit prisional no País.

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