Apuração das mortes no Alemão será difícil, diz MP do Rio de Janeiro

Segundo a polícia, ´marginais não permitem´ que perícia suba o morro

Pedro Dantas, do Estadão

10 Julho 2007 | 20h23

A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio (MP-RJ) consideram "difícil" a apuração das 19 mortes na operação policial do dia 27 no Complexo do Alemão (zona norte). Nenhuma testemunha foi ouvida, não foi realizado exame de resíduos de pólvora mãos dos mortos e a perícia no local dos confrontos é considerada improvável por promotores e pelo delegado-titular da 22ª Delegacia de Polícia, Alcides Iantorno, porque "os marginais não permitem". "Para chegar lá a polícia tem que subir com mil homens", reconheceu o delegado. Mesmo com as dificuldades nas investigações, Iantorno nega que tenham ocorrido execuções como relataram alguns moradores à Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa. "Essa palavra para mim não existe. O que houve foi um grande combate. Policiais apreenderam armas, prenderam traficantes e outros criminosos morreram ", afirmou o delegado. Na terça-feira, ele recebeu promotores do MP-RJ que tiveram acesso aos inquéritos que apuram as mortes nas operações policiais. Eles querem apurar as mais de 40 mortes nas operações policiais iniciadas no dia 2 de maio, sendo 19 delas na operação policial do dia 27 de junho. Nesta terça, um homem ainda não identificado morreu em confronto com a polícia na Favela da Fazendinha. O 16ºBPM informou que foram aprendidos com ele uma pistola, morteiros e um rádio-transmissor. O delegado informou que nenhuma testemunha foi ouvida até agora. Os únicos que prestaram depoimento foram os familiares de duas vítimas de balas perdidas. Compareceram à delegacia os parentes do engenheiro Aílton Lopes Moreira, morto em um posto de gasolina a 2 km do Morro da Fé de onde teria partido o tiro de fuzil que o atingiu no peito, e a dona de casa Maria Auxiliadora Gomes, assassinada com um tiro no abdômen por uma bala perdida que teria sido disparada do alto do Morro da Caixa D´água, a 1,5 km da rua onde ela estava. "Os familiares dos mortos em confronto com a polícia não apareceram. Estas pessoas são reféns dos traficantes. Se eles aparecem aqui, os traficantes podem fazer uma maldade com eles", declarou o delegado. Iantorno disse que o exame de resíduos de pólvora nas mãos dos mortos, que apura se houve uso de arma de fogo pela vítima, não foi feito porque os corpos seguiram direto para o Instituto Médico Legal. "Os corpos passaram por uma assepsia, foram lavados e as provas foram desfeitas", resumiu. Após o encontro com o delegado, o coordenador da 1ª Central de Inquérito do MP-RJ, o promotor Gianfilippo Pianezzola, disse que concorda com a polícia sobre os motivos que dificultam as apurações e se apressou em dizer que não acredita em execuções. "A presunção é que as mortes ocorreram de forma legítima. Os policiais teriam se defendido", afirmou o promotor. Apesar de ter anunciado que peritos do MP-RJ vão analisar todos os laudos cadavéricos, o promotor disse ontem que os documentos não provam se houve execuções. "Foi um combate urbano. A proximidade do tiro não induz necessariamente a uma execução. Buscamos outros dados como as apreensões de armas e testemunhas", declarou. Kombi A polícia revelou que entre os seis corpos deixados por um motorista de uma Kombi de transporte comunitário na porta da 22ª DP no dia 27 estava o cadáver de Jairo César da Silva Caetano, o Gerinho, um dos mais procurados traficantes e assaltantes que se escondia no Complexo do Alemão. A descoberta descarta que todos os corpos que os traficantes obrigaram o motorista a levar para a polícia tenham sido de pessoas executadas pelos criminosos por suspeita de traição. "Ele era muito importante para eles. Provavelmente, foi ferido, socorrido pelos comparsas, mas não resistiu", avaliou o delegado da 22ª DP.

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