Fabio Motta|Estadão
Fabio Motta|Estadão

Arranha-céu pioneiro hoje destoa da Nova Mauá

Posse da União, Edifício A Noite precisa de reforma estrutural, mas faltam recursos

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2015 | 21h59

RIO - Uma obra emergencial será feita na fachada do Edifício A Noite, na Praça Mauá, zona portuária do Rio, para garantir a integridade de pedestres e do prédio, o primeiro arranha-céu da América Latina, inaugurado em 1929. Mas não há verba para reformar o imóvel internamente, disse Mauro Maia, vice-presidente do Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi), em audiência pública realizada na quarta-feira passada na Procuradoria da República.

A sessão foi convocada pelo procurador Jaime Mitropoulos com o objetivo de discutir o destino do edifício, hoje interditado. O Inpi foi o último ocupante, até 2012. Tombado desde 2013, o prédio foi desenhado em estilo art déco pelo arquiteto francês Joseph Gire, famoso no Rio por ter projetado também o Hotel Copacabana Palace. O nome se deve ao fato de ele ter sido sede do jornal A Noite nos anos 1930.

O edifício era, como o Copacabana Palace, uma atração turística da cidade e servia de mirante a cariocas e visitantes. 

Servidor do instituto há 35 anos, Maia garante que atualmente o risco é de queda de elementos externos. “A solução exige uma medida imediata para afastar os riscos da fachada. Um contrato está sendo assinado nesse sentido. Vamos colocar tela envolvendo o prédio. Não há riscos para a área interna”, assegurou.

Os 22 andares – 18 do instituto e 4 da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), anteriormente usados pela Rádio Nacional – estão em mau estado de conservação. Milhões de documentos do banco de patentes do instituto e o mobiliário que servia aos escritórios estão sendo retirados por funcionários. A previsão no início do ano era de que os arquivos fossem integralmente removidos até o fim do primeiro semestre, mas 2015 está no fim e o trabalho continua. O Inpi se mudou para outro endereço da zona portuária.

“O problema do prédio é colocado na conta do Inpi. O edifício é da União, e a Rádio Nacional também estava lá”, disse Maia. Segundo ele, a recuperação de toda a construção custaria R$ 150 milhões e, em meio à crise financeira, não há verbas. 

Revitalização. O imóvel assistiu à degradação da zona portuária ao longo das últimas décadas e hoje destoa do aspecto renovado da Praça Mauá – dois museus foram construídos, o de Arte do Rio e o do Amanhã; a praça foi reurbanizada.

A prefeitura do Rio, que desenvolve as obras de revitalização há quatro anos, já tentou mediar a negociação da União com um grupo privado interessado em instalar um hotel ou edifício residencial no prédio histórico. No momento, não há transação em andamento.

Da audiência participaram representantes da EBC e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), gestores e ouvintes das Rádios Nacional e MEC AM e FM, que também são da EBC. Mitropoulos questionou os gestores não só sobre o prédio, mas também sobre o acervo histórico da MEC. A rádio remonta a 1936, quando foi doada ao governo por Edgar Roquette-Pinto, considerado o pai da radiodifusão brasileira.

O conjunto de programas radiofônicos é considerado de grande relevância pelo Iphan e está sendo tratado como “um ativo, um patrimônio, e não só memória”, disse a superintendente regional da EBC, Marília Kairuz. O acervo está sendo transferido do prédio da MEC na Praça da República para o da EBC, na Avenida Gomes Freire, na Lapa, e para casas na região.

“Estamos preocupados com a preservação do prédio e do acervo, agindo para que não virem ruína”, afirmou Mitropoulos. Existem dois inquéritos civis abertos para apurar a ineficiência do Estado na proteção do acervo e supostas irregularidades cometidas pelo Inpi em relação ao Edifício A Noite.

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