Assim como em Salvador, Filhos de Gandhi arrastam foliões no Rio

Ritmos de origem africana tomaram as ruas da zona portuária do Rio no início da noite deste sábado

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2018 | 22h10

RIO - Os ritmos de origem africana tomaram as ruas da zona portuária do Rio no início da noite deste sábado, 11, no primeiro desfile do Afoxé Filhos de Gandhi carioca. Centenas de foliões foram atrás do bloco, tão tradicional, mas menos famoso, do que o homônimo do carnaval baiano. O Filhos de Gandhi do Rio desfilará mais duas vezes: na segunda-feira de carnaval, o bloco estará na orla de Copacabana, na zona sul, e, na terça-feira de carnaval, estará no centro da cidade.

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O bloco mais famoso de Salvador e o afoxé do Rio não têm uma relação direta, mas um teria influenciado ao outro. A história oficial conta que o Filhos de Gandhy foi fundado por estivadores em Salvador em 1949, numa referência a Mahatma Gandhi, líder do processo de independência da Índia. Naquele ano, o mundo ainda se recuperava da Segunda Guerra Mundial, e a Índia e o Paquistão acabavam de conquistar a soberania (em 1947) do Império Britânico. Gandhi foi assassinado em 1948, e a notícia ainda estava na ordem do dia naquela virada das décadas de 1940 para 1950.

O Afoxé Filhos de Gandhi do Rio foi fundado dois anos depois do homônimo de Salvador, em 1951, segundo os registros oficiais da agremiação carioca. Desde então, desfila todo ano. Segundo Carlos Machado, atual presidente do bloco, com 30 anos de participação na diretoria, há relatos de intercâmbio entre os fundadores dos dois afoxés.

“A história é que o bloco daqui teve alguns fundadores vindos de Salvador”, disse Machado, pouco antes de o cortejo partir no sábado, embalado por menos de 100 ritmistas e um carro de passeio equipado de uma caixa de som, que amplificava a voz dos cantores.

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Tanto o afoxé do Rio quanto o de Salvador foram criados por estivadores organizados em torno dos sindicatos dos trabalhadores portuários. No movimento sindical da primeira metade do século 20, era comum os estivadores e demais trabalhadores portuários viajarem e mudarem de cidade, trocando ideias, inclusive, com colegas de outra cidades do mundo, disse Machado.

Se a globalização sindical e a politização ajudam a explicar a referência a Mahatma Gandhi, a música vem da África. O afoxé é um dos ritmos de origem africana tocados nas cerimônias de candomblé, com instrumentos como atabaques, agogôs e xequerês. Os cânticos são originários da cultura iorubá, um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental. Os iorubás estão entre as etnias mais atingidas pela escravidão, com forte presença entre os escravos que vieram para o Brasil.

Além de nomear o ritmo musical, o afoxé se refere também aos blocos que tocam músicas de origem africana e surgiram, entre o fim do século 19 e início do século 20, em cidades como Salvador e Rio. Originalmente, os blocos tinham vinculação com terreiros de candomblé, mas, ao longo do tempo, restou apenas a conotação cultural e festiva dos desfiles.

Segundo Machado, o Filhos de Gandhi do Rio já não tem conotação religiosa, embora muitos de seus integrantes sejam candomblecistas. “Nosso afoxé é cultural, mas isso não quer dizer que não tenha relação com a religião. A prática religiosa se dá entre quatro paredes”, disse Machado, ele mesmo praticante do candomblé. Segundo o presidente do bloco, cerca de 90% dos ritmistas do afoxé atuam em terreiros de candomblé, mas, no desfile, recebem o reforço de músicos de diversas origens. 

 

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