FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Caçadores de neve lotam parque no Rio

A previsão, porém, não se confirmou; turistas se prepararam com casacos pesados e gorro

Clarissa Thomé, Enviada especial

03 Julho 2017 | 20h45

RESENDE - Não teve neve. Mas muita gente acreditou na previsão de que a entrada de uma massa de ar polar derrubaria a temperatura no Parque Nacional do Itatiaia, em Resende, no interior do Rio de Janeiro e faria com que voltasse a nevar ali, depois de quase 30 anos. Só neste domingo o parque recebeu 1.470 pagantes - o dobro do que costuma receber nesses dias. “Moça, a que horas cai a neve?”, foi a pergunta que a voluntária Fátima Chaves, de 60 anos, mais ouviu.

A esperança era tanta que um grupo de crianças chegou ao parque logo cedo com cenouras nas mãos. A intenção era fazer um boneco de neve. Havia gente com as roupas mais diferentes, o que levou os guias do parque a elegerem o gorro que mais chamava a atenção. Venceu o do personagem Zé Colmeia.

Alguns visitantes destoavam pela falta de vestimenta adequada. Apesar da previsão de 6 graus negativos, que não se confirmou, teve gente de bermuda, um rapaz descalço porque cedeu o tênis à namorada, uma senhora de sandália e muitos de chinelo.

O engenheiro civil Wallace Fernando de Souza, de 37 anos, saiu de moto de Belo Horizonte, em Minas Gerais, pegou o amigo, o contabilista Evandro Xavier, de 40, em Lorena, São Paulo, na expectativa de verem neve no parque. Foram mais de 500 quilômetros de estrada. 

Chegaram à entrada para a parte alta do Itatiaia, às 14 horas. Depararam-se com todas as vagas ocupadas para camping e para o Abrigo Rebouças, alojamento coletivo com camas beliches. Não desistiram. Às 18 horas, conseguiram um beliche no Rebouças. “Nos conhecemos subindo as Agulhas Negras (pico na divisa de Minas com o Rio), no ano passado. Começamos a fazer essas trilhas juntos. A neve foi uma desculpa para nos encontrarmos. O importante é a viagem”, disse Souza. Quem não conseguiu lugar ficou na entrada do parque. Um grupo tocou violão para afastar o frio. 

O analista de sistemas Sandro Seixas, de 50 anos, tem uma frustração: perdeu a neve de junho de 1985. Ele e seus amigos tinham ido acampar em Lumiar, na Região Serrana. “Fiquei com trauma, mas meu filho, não. No primeiro sinal de neve, peguei meu filho e vim. É a primeira vez que ele acampa”, disse, ao lado de Guilherme, de 12 anos. “Como está muito frio e muito úmido, é a condição perfeita para a neve. Na dúvida, estamos aqui esperando, para tirar fotos lindas.” Pai e filho enfrentaram 1 grau negativo.

Os vizinhos de barraca foram o casal Bruno Mallet, de 30 anos, e Raíssa Gonçalves, de 24, e Eduardo Dinelle, de 36, junto da filha Ane, de 6. Apesar da pouca idade, ela não é neófita em frio no Itatiaia. Em 2016, acordou com geada. Desta vez, nem isto - ventou muito. “Valeu a aventura”, resumiu Mallet.

Na década de 1980, nevou duas vezes no Parque de Itatiaia - 1985 e 1988. Em 2012, houve pequena quantidade de gelo e ficou a controvérsia, se havia nevado ou se havia ocorrido o fenômeno conhecido como sincelo - congelamento de forte nevoeiro ao tocar a superfície.

Atrás do frio. Desde 2012, é possível acompanhar a temperatura no parque por causa dos esforços do grupo Brasil Abaixo de Zero (BAZ), que monitora baixas temperaturas no País. Cerca de 50 membros se cotizaram para doar uma estação meteorológica ao parque. Coube ao analista de sistemas Artur Chiovitti, de São Bernardo do Campo, fazer a instalação.

Ele próprio é dono de uma estação, instalada a 2.578 metros de altitude, no Morro Massena, nas dependências do parque. “Sempre fui um curioso do tempo. Aos 14 anos, já lia mapas meteorológicos. Minha família, quando queria saber se ia chover, vinha perguntar para mim.” 

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