Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Crivella abre folia, mas evita Rei Momo: 'o carnaval é apenas uma festa'

No segundo ano de mandato, prefeito tenta reverter imagem de anticarnavalesco, mas diz que o 'Rio de Janeiro não é só carnaval'

Marcio Dolzan e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2018 | 12h21
Atualizado 09 Fevereiro 2018 | 23h15

RIO - Depois de muito suspense, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), compareceu na manhã desta sexta-feira, 9, à cerimônia de entrega simbólica da chave da cidade ao Rei Momo, que abre oficialmente o carnaval carioca. Mas evitou passar o símbolo às mãos do monarca: deixou a tarefa para o filho de um ex-funcionário da prefeitura, já morto, ligado aos desfiles das escolas de samba. 

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A "passagem de comando" vinha cercada de expectativa porque se trata de um gesto tradicional dos prefeitos. No ano passado, o primeiro de sua gestão, Crivella não apareceu, o que contrariou as escolas. O gesto foi interpretado como sinal de descaso. A animosidade piorou este ano, com a redução de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão da verba destinada à preparação dos desfiles por cada agremiação. 

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Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), que condena a folia, Crivella vem sendo tachado pelas escolas e por foliões de blocos de carnaval de "prefeito anticarnavalesco". Os dirigentes das agremiações o veem como um traidor, uma vez que o apoiaram em sua campanha eleitoral, em 2016. Crivella nega as acusações. Argumenta que a crise econômica reduziu os recursos da prefeitura, obrigando-o a priorizar áreas essências, como a educação, para o recebimento de verbas.

Aconselhado por assessores, o prefeito vem tentando mudar essa imagem, chegando a louvar o carnaval como manifestação popular. Não é tarefa fácil, na análise de pessoas que lhe são próximas. Crivella busca acenar para sua base evangélica conservadora, que desaprova a concessão "aos prazeres da carne", e ao mesmo tempo tenta não desagradar o restante da população.

Nesta sexta, o prefeito fez duas vistorias nas instalações de som e luz da Sapucaí, de manhã e de tarde. Deu novas declarações controversas: disse que "o carnaval é apenas uma festa", não sendo prioritária. Afirmou ainda que "o sonho" da prefeitura é que as escolas sejam financiadas, no futuro, apenas pela iniciativa privada, comparando os desfiles ao Rock in Rio. Garantiu, no entanto, que não tem "qualquer tipo de preconceito contra o carnaval" e declarou que ele próprio é discriminado "desde criança", por causa de sua conversão religiosa. 

Na visita feita pela manhã, antes da entrega da chave, desdenhou da cerimônia.

"Esse negócio da entrega da chave está virando um dogma religioso. A vida inteira se entregou chave para o Rei Momo. Melhorou a educação? Melhorou a saúde? Se não entregar vai ter crise da dengue? Enchente no verão? Queria saber: me cobram tanto para entregar essa chave, tem uma (sic) relevância?", indagou. 

A vistoria da manhã foi marcada por um pequeno acidente. Um assessor tropeçou e acionou acidentalmente um hidrante, fazendo com que um jato d'água encharcasse a calça do prefeito. Outras pessoas que acompanhavam Crivella também se molharam.

"O pessoal da Rio Águas (órgão vinculado à Prefeitura do Rio responsável pelas redes de água do município) está de parabéns, porque a vazão que colocou no ponto de água, quase me jogou para o alto. Se o bombeiro encostar aí, vai poder apagar incêndio até lá no Catumbi", brincou Crivella, referindo-se ao bairro que fica ao lado da Sapucaí.

O prefeito reconheceu que o carnaval é importante para a cidade. "Estamos aqui para aplaudir as pessoas, esse esforço extraordinário. A maioria é de pessoas simples e humildes, que admiramos. Agora, na escala de hierarquias, é uma festa apenas", classificou. "Bem representativa desse esforço que todos temos para ressurgir das nossas tragédias. Mas o Rio de Janeiro não é só carnaval, tem suas escolas, hospitais, poluição de rios e lagoas, desemprego imenso, crianças morrendo de bala perdida."

Crivella também reafirmou que este ano a cidade bateu recorde de arrecadação de recursos privados graças a esforços de sua gestão. "Isso faz com que a gente vislumbre no futuro o que é o sonho de todos nós: que o carnaval seja só com recursos privados, como é, por exemplo, o Rock in Rio, que tenha só verbas privadas e grande lucratividade. Essa é a ideia", declarou. 

Ao fim da cerimônia da entrega da chave, de madeira e ornamentada com lantejoulas, no Palácio da Cidade, sede da prefeitura, quem declarou aberto o carnaval foram o presidente da Riotur, Marcelo Alves, e o Rei Momo, Milton Rodrigues, e não Crivella. A entrega foi feita por Sergio de Jesus, filho de José Geraldo de Jesus, o Candonga, que era coordenador dos desfiles e morreu há 20 anos. Pela ligação forte com o carnaval, sua família é guardiã da chave até hoje.

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