Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Cidade de Deus lidera ranking de tiroteios no Rio de Janeiro: 41

Monitoramento por aplicativo rastreia confrontos; 18 das 38 UPPs poderão ser extintas pelo comando da Polícia Militar

Fábio Grellet e Márcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2018 | 22h42

RIO - Cenário de confrontos entre traficantes e policiais militares nos dois últimos dias, com três mortos e interrupções do tráfego na Linha Amarela, além de motoristas abandonando veículos sob os disparos, a Cidade de Deus foi a região do Rio que mais registrou tiroteios em janeiro. Foram 41 confrontos armados, segundo o aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT-RJ), superando a Rocinha, na zona sul, onde ocorreram 32 enfrentamentos no período.

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A Favela do Jacarezinho, onde um delegado foi assassinado por criminosos há duas semanas, ficou em terceiro, com 23 trocas de tiros. “Os criminosos voltaram com tudo”, avalia Paulo Storani, mestre em Antropologia e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o grupo de elite da Polícia Militar do Rio. “O projeto (das Unidades de Polícia Pacificadora) deveria oferecer outros benefícios sociais, mas acabou se restringindo à polícia e perdeu força.”

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Conforme Storani, a região é problemática há muito tempo, porque existe ali uma disputa entre traficantes e milicianos. “Muitas vezes os confrontos começam entre esses dois grupos, e a polícia chega para intervir. Os moradores ficam no meio dessa confusão”, conta.

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Desde fevereiro de 2009, a Cidade de Deus conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A base só reduziu a criminalidade na região durante os primeiros anos. “Agora, a Cidade de Deus está em destaque, mas a situação é semelhante em várias outras comunidades do Rio, como Rocinha, Alemão e Jacarezinho. A PM está sobrecarregada, os criminosos perderam o medo das UPPs e não há uma política de segurança capaz de combater o tráfico e as facções”, afirma Storani.

Nesta quinta-feira, 1º, os confrontos entre traficantes e policiais se repetiram na Cidade de Deus, desta vez sem mortes até as 19 horas. Os tiroteios recomeçaram de manhã, causando pânico entre moradores e quem passava pela região. A Linha Amarela permaneceu interditada por 50 minutos, a partir das 8 horas.

Por volta das 7h30, um grupo de pessoas protestava em uma via perto da Linha Amarela e ameaçava incendiar um ônibus. A PM foi chamada e uma viatura que manobrava na própria Linha Amarela foi atacada a tiros por criminosos que fugiram. Ninguém se feriu, mas a PM reagiu, e os confrontos recomeçaram. A Linha Amarela foi interditada às 8 horas e só liberada às 8h50.

Operação

Em São João de Meriti e Belford Roxo, na Baixada Fluminense, as Polícias Civil, Federal e Rodoviária Federal realizaram nesta quinta uma operação conjunta contra o tráfico de drogas e o roubo de cargas. O objetivo era cumprir 65 mandados de prisão e 85 de busca e apreensão. Três suspeitos foram mortos e 12 pessoas, presas. Outros quatro mandados de prisão foram cumpridos, mas as pessoas já estavam detidas por outros crimes. 

Segundo a polícia, foram apreendidas quatro pistolas, um revólver calibre 38 e duas motocicletas roubadas.

UPPs

Em meio à crise financeira e à escalada da violência no Rio de Janeiro, a Polícia Militar do Estado poderá extinguir 18 das 38 Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). O programa foi adotado a partir de 2008. Nos últimos anos, vem sofrendo com a falta de investimento nas unidades e diminuição do efetivo. Segundo o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias, a extinção de quase metade das UPPs ainda depende de mais estudos.

“Vários fatores têm de ser levados em consideração: o momento que estamos vivendo, a questão financeira para manutenção do projeto. Aquelas (UPPs) em que não haja um domínio territorial maior talvez possam ter reavaliadas a sua manutenção ou não”, declarou Dias, após participar de seminário sobre segurança pública na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

A PM também discute a blindagem de pelo menos parte de suas viaturas. A intenção é que os para-brisas traseiro e dianteiro dos veículos recebam o reforço no material.

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