Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Comandante do Choque acusado de nazismo é exonerado no Rio

Secretário estadual de Segurança negou ter sido avisado do motivo de afastamento do coronel Fábio Almeida de Souza do Bope

Tiago Rogero, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2015 | 13h14

Atualizada às 23h50

RIO - Suspeito de incitação à violência e nazismo, o comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio, coronel Fábio Almeida de Souza, de 45 anos, foi exonerado nesta segunda-feira, 5, pelo secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame. 

O oficial era um dos principais nomes da corporação. Nos últimos dois anos, além de liderar por duas vezes o Choque, foi comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e chefiou a guarda pessoal de Beltrame. Nesta segunda, o secretário negou que soubesse das denúncias quando nomeou o coronel para o cargo.

O caso veio à tona no fim de semana, com reportagem da revista Veja que revelou a troca de mensagens com teor nazista entre o coronel e outros oficiais. “É a vontade do Führer”, escreveu um deles sobre o comandante, em referência a Adolf Hitler. Nas manifestações de junho de 2013, Souza chefiava o Choque. Por causa do excesso de violência com manifestantes, foi afastado. Dois meses depois, ganhou o comando do Bope.

O Choque, então, ficou sob o comando do tenente-coronel Márcio Rocha, desafeto de Souza. Em janeiro de 2014, Rocha foi vítima de tentativa de assassinato. A Corregedoria Interna da PM instaurou inquérito e, nas investigações, surgiu a troca de mensagens entre o coronel e comandados em grupo do WhatsApp. Por causa delas, o militar foi afastado do Bope pelo então comandante-geral da PM, coronel José Luís Castro.

Decisão. Em entrevista à Veja, o ex-comandante afirmou que, quando decidiu afastar o coronel, em abril de 2014, comunicou o motivo a Beltrame. “Estive pessoalmente na sala do secretário e informei o que tinha ocorrido. Ele só me pediu que o transferisse para a Secretaria de Segurança”, disse Castro, “demitido” do comando-geral em novembro por Beltrame.

O secretário negou: “Não tenho o teor daqueles diálogos”. Nesta segunda, Beltrame disse ter tomado conhecimento das mensagens no fim de semana, ao ler a reportagem. “Vendo aquilo, eu exonerei o coronel e o deixei sem função porque fiquei horrorizado.” Ele criticou Castro: “Se sabia, não só deveria ter me comunicado como ele, de pronto, abrir processo disciplinar contra o coronel, o que só está acontecendo agora, e a meu pedido”.

Quando tirou Castro do comando-geral, Beltrame anunciou o coronel Alberto Pinheiro Neto, ex-comandante do Bope, que só nesta segunda foi empossado no cargo. Antes disso, o posto foi ocupado interinamente pelo coronel Íbis Pereira. Ainda assim, Pinheiro Neto já promoveu mudanças. Logo após ser anunciado, determinou, em novembro, que Souza deixasse a guarda de Beltrame e voltasse ao comando do Choque. 

Nesta segunda, a PM informou que, com a exoneração de Souza, o Choque será chefiado pelo coronel Wilman Rene Gonçalves Alonso, que acumulará a função com o Comando de Operações Especiais (COE).

Segundo Beltrame, os outros oficiais que participavam da troca de mensagens também serão investigados. Souza seguirá recebendo o salário de coronel enquanto corre o processo administrativo que poderá, ou não, resultar em sua expulsão.

Coordenador de Direitos Humanos do Ministério Público do Estado do Rio, o procurador Marcio Mothé instaurou nesta segunda inquérito civil para apurar o caso. Segundo ele, as mensagens de teor nazista ferem o artigo 20 da lei federal 7.716/89, que prevê pena de um a três anos de prisão. De acordo com o procurador, se o crime é cometido por intermédio de meios de comunicação, a pena pode chegar a cinco anos.

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