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Crime e sensação de insegurança no Rio persistem, mesmo com ação militar

Nos primeiros quatro dias do mês, aplicativo registrou 55 tiroteios, 5 a mais que na semana anterior à chegada das tropas; número de baleados também ficou estável, segundo secretaria. Na rede social, 3 em cada 10 citações de violência vêm do Estado

Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2017 | 03h00

RIO - Os criminosos não recuaram nem os índices de violência caíram significativamente na semana inicial da presença das Forças Armadas no Rio. Nos primeiros quatro dias de agosto (até 19 horas desta sexta), o Rio havia registrado 55 tiroteios, segundo o aplicativo colaborativo Onde Tem Tiroteio (OTT-RJ). Foram 5 a mais que os registros do mesmo período da semana anterior, de terça a sexta. O governo estadual não divulgou dados oficiais de criminalidade. 

No primeiro fim de semana da operação Rio Quer Segurança e Paz, os hospitais estaduais receberam dez baleados. No anterior haviam sido 13, variação considerada dentro da média pela Secretaria Estadual de Saúde.

Em contraste, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que houve redução, no Estado, de roubos a carga, um dos crimes que mais cresceram nos últimos meses. De 1.º a 14 de julho – quando ainda não estava nas ruas a Operação Égide, ação preparatória para a vinda das forças ao Rio – houve 54 crimes. Já de 15 a 31 de julho foram 39, uma redução de 27,78% no número de casos. A ação militar começou na sexta-feira da semana passada, 28 de julho, quando as tropas foram para as ruas. Na quarta, os militares voltaram para os quartéis.

O Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão especializado em estatísticas ligado à Secretaria de Segurança, informou que não divulga números semanais das ocorrências. O Comando Militar do Leste, que responde pelo Exército na região, afirmou que não divulgaria números. “Dizer, com uma semana (de operação), quando os índices cairão é uma previsão impossível”, afirmou o ministro da Defesa, Raul Jungmann, em entrevista ao Estado

Ao longo da semana, os criminosos demonstraram desprezar a presença militar. Nesta sexta, por exemplo, assaltantes atacaram um caminhão da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, no Engenho Novo, na zona norte do Rio. O veículo foi levado para o Morro São João, no mesmo bairro, onde as encomendas que transportava foram roubadas.

Na quinta, um policial militar que estava de folga foi baleado em assalto a uma agência bancária no bairro Jardim América, na zona norte. Outro agente foi morto a tiros em São Gonçalo, na região metropolitana, no sábado. O crime elevou para 92 o número de PMs mortos no Rio apenas neste ano. No ano passado, foram 78.

Ao todo, 8,5 mil militares estão no Estado, além de 620 homens da Força Nacional de Segurança e 1.120 da Polícia Rodoviária Federal (PRF) – 740 desses já estavam no Rio. De sábado a terça-feira, os militares fizeram ações de reconhecimento das áreas do Rio e blitze. 

Percepção. Um estudo do Laboratório de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-DAPP) avaliou que, das 48,3 mil menções à violência no Twitter feitas nesta primeira semana de agosto, 32% vieram do Rio. Segundo a pesquisadora Maria Isabel Couto, o debate aumentou com a presença dos militares. “Vimos um posicionamento ambíguo nos comentários. Algumas pessoas agradecendo e considerando importante as Forças Armadas e outras criticando o que consideram o sinal de falência do Estado. Mas o caráter de lamento, de como o Rio é um lugar bonito mas tem uma segurança muito ruim, é frequente.” / COLABOROU MÁRCIO DOLZAN

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Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 03h00

Nem houve tempo para nos assustarmos muito. A pancada na traseira do carro de reportagem do Estado, forte, nos arremessou para a frente, de tal modo que, se não estivéssemos com os cintos afivelados, teríamos sido jogados contra o painel. Olhamos para trás e houve o segundo choque. E aí vimos o carro com os suspeitos passar. Uma viatura da PM seguiu, muito perto do veículo, em perseguição. Eram 22 horas de quinta-feira.

Estávamos no Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, na zona norte carioca. Recuperados do susto, aproveitamos o cruzamento e o trânsito parado para levar o carro para um recuo. Foi quando começou o tiroteio, 200 metros à frente. Levou alguns segundos até que entendêssemos que precisávamos nos abrigar, para evitar balas perdidas. Duas mulheres fizeram o mesmo, em uma transversal. Ficamos ali até que os tiros cessassem. 

Encerrado o tiroteio, fomos até onde o carro dos bandidos fora deixado. Os curiosos pareciam encarar tudo como normal. Olhavam o carro semidestruído e comentavam o confronto. No jogo de roleta que vivemos diariamente no Rio, vencemos mais uma vez. Chegamos vivos em casa.

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‘Nunca prometemos soluções mágicas’, diz ministro da Defesa

Uma semana é pouco para avaliar a eficiência da operação, diz ministro; armas e fuzis serão um dos focos dos militares

Entrevista com

Raul Jungmann

Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 03h00

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirma que o foco inicial das Forças Armadas no combate ao crime no Rio serão armas, especialmente fuzis, comando do crime e dinheiro. Ao Estado, ele afirma que, com uma semana de operação, é impossível dizer quando os indicadores de violência cairão. Promete, porém, boas notícias “muito em breve”. A seguir, um resumo dos principais trechos da conversa:

Como o senhor avalia a primeira semana da operação das Forças Armadas no Rio e os números da violência?

Sobre os números, quem os tem é a Secretaria de Segurança do Rio. Ademais, uma semana é insuficiente para medir tendências e/ou resultados. 

Em quanto tempo o senhor acha que dá para ver um resultado prático?

As ações serão variadas e não obedecerão a uma rotina. Serão múltiplas as formas, os meios e os métodos. As Forças Armadas atuarão em apoio, não no combate ao crime, que é tarefa das polícias. Nosso foco inicial são as armas, em especial, fuzis. 

Como será dado esse foco? Nas operações da PRF nas fronteiras?

Dizer, com uma semana (de operação), quando os índices cairão é uma previsão impossível, no momento. Os focos serão armas/fuzis, comando do crime e recursos financeiros. 

Nestes primeiros dias em que a Força estava nas ruas, pensávamos que a ação militar inibiria criminosos, o que a população anseia mais.

(A população) Anseia (a ação militar que) e inibe (o crime). Mas ela não reduz a capacidade operacional do crime. Entramos, eles tiram férias, a população é “anestesiada”. Saímos - não é possível ter tropa nas ruas indefinidamente, além do custo altíssimo -, e eles voltam, muitas vezes mais ferozes. Tropa na rua inibe, jamais golpeia o crime.

O senhor que deixar algum recado para a população do Rio?

As ações e os resultados virão, muito em breve. Nunca prometemos soluções mágicas, mas trabalho duro e continuado. Inteligência, polícia, militares e ação social estão trabalhando integradamente neste momento. Muito em breve teremos boas noticias. 

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Bastidores: Condição jurídica e baixa adesão do Estado incomodam militares

Há questões sérias a serem resolvidas para que a Operação Segurança e Paz deixe o cenário promocional e migre para o teatro de operações a que se destina

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 03h00

Há questões sérias a serem resolvidas para que a Operação Segurança e Paz deixe o cenário promocional e migre, como deve, para o teatro de operações a que se destina. A primeira delas é a definição da condição jurídica dos combatentes envolvidos. Pelas regras vigentes, um homem da tropa que, em uma ação que resulte na eventual troca de tiros venha a matar um criminoso, poderá responder a processo criminal por homicídio doloso. Houve um caso assim em 2010, na sequência da ocupação do Complexo do Alemão - os dois militares envolvidos ficaram sob investigação durante quatro anos. 

Mais que isso. Se, por exemplo, a inteligência infiltrada apurar a localização de um líder do tráfico ou do roubo de cargas, as Forças Armadas não poderão realizar uma operação de extração. Antes será necessário ter em mãos um mandato de busca e apreensão da Justiça. A experiência acumulada nas ações anteriores não é boa. No Rio, a expedição do documento pode demorar até duas semanas.

A solução seria manter um juiz especial, designado para atuar agregado à missão, 24 horas, de forma a resolver os procedimentos com rapidez. De acordo com um oficial do Exército ouvido nesta sexta pelo Estado, “nesse tempo a informação terá perdido a validade ou, pior, vazado por colaboradores do crime organizado”. O decreto do presidente Michel Temer, assinado há uma semana, não fecha essas brechas.

A baixa adesão do governo do Estado aos compromissos negociados com a Defesa, primeiro sob Sérgio Cabral e depois com Luiz Fernando Pezão, também incomoda as Forças mobilizadas. No programa de 2010 estava prevista a modernização das polícias - dos critérios da seleção ao treinamento, passando necessariamente por uma atualização dos recursos tecnológicos. “Nos primeiros cinco anos deveriam ser reciclados ou incorporados ao novo esquema perto de 3 mil agentes - o projeto não foi executado, nada aconteceu”, sustenta o militar. 

O mapeamento das áreas de risco, pontos de tensão e de valor estratégico - depósitos de armas, centros de comando, estoques de drogas -, atualizado na primeira fase da Segurança e Paz, terá de ser seguido por um movimento forte de captura e neutralização. A tropa vai dar apoio à ação policial. É uma definição ampla. Debaixo desse mesmo conceito, em um domingo de novembro de 2010, cerca de 2,7 mil homens só precisaram de 1h20 para tomar o Alemão. Passados pouco menos de sete anos, sem ação social eficiente e sem a recuperação urbana prevista, a região continua conflagrada. 

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