Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Crimes no Alemão e  na Penha estão mais altos que antes de ocupação por forças de segurança

Ocorrências no 1º semestre de 2014 superam 2010; secretaria diz que moradores tiveram mais liberdade para procurar delegacias

Tiago Rogero, O Estado de S. Paulo

04 Agosto 2014 | 12h00

Atualizada às 16h40

RIO - Há mais crimes hoje nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio, que antes da ocupação das comunidades pelas forças de segurança, em novembro de 2010. Nos seis primeiros meses deste ano, o total de ocorrências registradas, 6.188, foi 30,1% maior que no primeiro semestre de 2010: tiveram alta crimes como tentativa de homicídio (250%), lesão corporal dolosa (81,8%) e estupro (66,7%). Só este ano, cinco PMs das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Alemão e da Penha morreram em confrontos com traficantes - o maior número de baixas de militares desde a criação do projeto, em 2007.

O comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas, classificou o último mês de março como “o momento mais crítico desde o início das UPPs”. Em um só mês, três PMs morreram no Alemão e na Penha, entre eles o subcomandante da UPP da Vila Cruzeiro, tenente Leidson Acácio Alves Silva, de 27 anos. 

Na madrugada desta segunda, criminosos dispararam contra uma viatura da UPP do Parque Proletário, na Penha. Os PMs revidaram e houve tiroteio, mas não houve feridos ou presos, de acordo com a polícia. Nas últimas semanas, as trocas de tiros têm sido frequentes. Em julho, o teleférico do Alemão chegou a ficar cinco dias fechado, deixando 12 mil pessoas diariamente sem o transporte. Escolas públicas também não puderam abrir e, em um só dia, mais de 10 mil crianças e adolescentes ficaram sem estudar.

“Não imaginava que, depois de 2010, fosse acontecer tudo isso de novo”, disse Rene Silva, de 21 anos, diretor do jornal Voz da Comunidade. Aos 17, o morador ficou conhecido por tuitar em tempo real a ocupação do Alemão pelas Forças Armadas (o Exército ficou até julho de 2012, quando assumiram oficialmente as UPPs). “Tudo isso acaba gerando a reação dos moradores, de revolta, tristeza, perda de esperança. Nas últimas três semanas, têm aumentado as reclamações no site, de abuso de autoridade por parte dos PMs”.

Na semana passada, moradores do Alemão organizaram na internet um “tuitaço” com a hashtag #SOSComplexodoAlemão: mais de 3 mil tuítes, segundo levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas. 

Para o comandante das UPPs, o aumento dos tiroteios este ano no alemão pode ter motivações políticas por conta das eleições. “O processo de ‘pacificação’ foi um prejuízo muito grande para o crime organizado. Isso aqui era o coração do Comando Vermelho (principal facção criminosa do Rio). Não podemos desprezar a possibilidade de haver algum interesse político em enfraquecer esse processo”.

Violência. O levantamento do Estado junto ao Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP), da Secretaria de Segurança do governo do Rio, leva em conta as ocorrências registradas nas duas delegacias que atendem aos complexos de Alemão e Penha, 22ª DP e 45ª DP (inaugurada em dezembro de 2010, fica dentro do Alemão). Segundo os dados, os casos de roubo a transeunte, por exemplo, que chegaram a só 32 em dezembro de 2011 (pouco mais de um ano após a ocupação), somaram 761 este ano, praticamente o mesmo registrado antes da chegada das forças de segurança: 759 no primeiro semestre de 2010. 

Na comparação entre os dois períodos (primeiros semestres de 2010 e 2014), houve aumento de 1.185% nas apreensões de drogas: de 21 para 270. Também cresceram as apreensões de adolescente (116,1%) e prisões (141%), além de mortes de PMs em serviço: 5 este ano, ante nenhum em 2010. Os casos de homicídio doloso permaneceram os mesmos: 21. Houve diminuição em alguns índices, como no número de roubos a residências (de 14 para 6), e no total de roubos e furtos: quedas de 11,2% e 11,1%, respectivamente.

Em nota, a Secretaria de Segurança (Seseg) informou que, com a ocupação, os moradores “passaram a ter mais liberdade, inclusive a de procurar uma delegacia e registrar crimes”. “Por isso, a Seseg inaugurou uma delegacia só para atender à região. Apesar de alguns índices registrarem aumento no primeiro semestre de 2014, quando houve uma tentativa mais incisiva de criminosos em voltar à região, os números ainda são menores do que os registrados no primeiro semestre de
2009”, argumentou a Seseg.

Em seu levantamento, a Seseg incluiu os números da 38ª DP (Irajá), na qual, segundo a própria secretaria, não entram casos do Alemão e da Penha. Mesmo com os dados da 38ª DP, segundo os números levantados pelo Estado - públicos e coletados no site do ISP - o total de ocorrências em 2014 foi 15,6% maior que no mesmo período de 2009. O aumento é registrado também em crimes como tentativa de homicídio (56%), estupro (455%, de 9 casos para 50) e roubo a estabelecimento comercial (78,9%). 

Ainda segundo a Seseg, “não houve propriamente um aumento no número de estupros, mas sim no número de notificações. Isso graças a um intenso trabalho da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, de conscientização e valorização da mulher”. / COLABOROU THAISE CONSTÂNCIO

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