Criticar cenas de tortura no 'Tropa' é censura, diz diretor

Para José Padilha, ativista de direitos humanos precisam encarar o retrato feito pelo filme

Alexandre Rodrigues, Estadão

23 Outubro 2007 | 18h32

Depois de muita polêmica, o filme Tropa de Elite desencadeou no Rio mais uma controvérsia. A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, encaminhou uma discussão na entidade de defesa dos direitos humanos sobre as cenas de tortura do filme de José Padilha. Chegou a ser divulgado que o grupo poderia recorrer ao Ministério Público. O capitão reformado do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Rodrigo Pimentel, um dos roteiristas do longa e co-autor do livro que o inspirou, reagiu, acusando tentativa de censura.   "É uma opinião isolada. Não acredito que o Tortura Nunca Mais, em função de sua história, acompanhe a Cecília. Todos os regimes que promoveram a tortura também legitimaram a censura", disse Pimentel. "Existe uma preocupação excessiva de rotular o filme. Ele não é de esquerda nem de direita, não tem ideologia. É uma obra de arte, entretenimento. Obra de arte não se rotula."   Cecília nega que tenha qualquer pretensão de tirar Tropa de Elite de cartaz, visto por milhares de pessoas em DVDs piratas antes mesmo do lançamento nos cinemas. Ela classificou o episódio como um "telefone sem fio" e contou que a preocupação sobre as cenas de tortura do longa surgiu em um ciclo de debates a partir de filmes sobre violência na sede do grupo.   O tema foi discutido numa reunião do grupo anteontem e, segundo Cecília, os membros decidiram apenas consultar o Ministério Público sobre medidas contra a militarização da política de segurança do Estado do Rio, tema do filme.   "Não queremos tirar o filme de cartaz. Censurar é a última coisa que queremos. Defendemos, acima de tudo, o direito à expressão, mesmo quando discordam do que pensamos", afirmou Cecília. Segundo ela, a preocupação com a ficção foi potencializada pela realidade das imagens exibidas na TV de um helicóptero da polícia perseguindo traficantes a tiros na Favela da Coréia, na semana passada. "Aquilo foi extermínio".   Tropa de Elite não é o primeiro filme criticado por reproduzir cenas de tortura. Na década de 80, Pra Frente Brasil, chocou ao mostrar a tortura de um personagem confundido com um militante político durante a ditadura. No início deste ano, Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, também foi criticado pelo realismo das cenas de tortura dos frades dominicanos presos no regime militar pelo temido delegado Fleury.   Para Cecília, os filmes que retrataram os crimes do regime militar falam do passado e não influenciam o presente como é o caso de Tropa de Elite. Ela se diz preocupada com a reação de jovens, como os que dramatizam os métodos do personagem Capitão Nascimento em vídeos na internet.   "A tortura é uma coisa vil. Não discuto a intenção do diretor, mas os efeitos que o filme está produzindo em uma realidade violenta que está aí. Não existe obra neutra. Nada neste mundo é neutro. O filme ajuda a consolidar a idéia de que não há saída, a solução são os homens de preto. Isso é muito perigoso", afirmou Cecília. Para Pimentel, há uma "patrulha ideológica" contra Tropa pelo fato de o filme ter a polícia como protagonista. "Se as cenas estimulassem tortura, Paixão de Cristo não poderia ser visto. Quando a esquerda é a vítima, a tortura pode. É uma injustiça dizer que Tropa é de direita. O filme denuncia a tortura num debate sobre segurança onde ela existe".   O diretor Helvécio Ratton lembra Batismo de Sangue trata de um contexto completamente distinto, mas vê na tortura exibida em Tropa um ponto em comum: o instrumento para obter informações. Ele lembra que o delegado Fleury era um policial civil que se credenciou para a repressão por já usar esses métodos. O delegado foi retratado em seu filme sem deixar dúvidas de que era o vilão. Ratton vê muitas qualidades em Tropa, mas não teria filmado o Capitão Nascimento como fez o diretor José Padilha.   "O Capitão Nascimento não é diferente do Fleury. O que me assusta é uma parcela dos espectadores aplaudirem os métodos usados pelo Bope. Se suscita esse tipo de reação, algo está confuso nesse filme. Eu teria me distanciado mais do Capitão Nascimento. Tenho a impressão de que ele também dominou o filme", analisa Ratton, que é contra qualquer iniciativa de censura. "O filme tem um papel muito importante de colocar uma discussão sobre segurança pública. Qualquer iniciativa de censura é um absurdo".

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