Crivella diz que seria 'demagogia' aparecer em Sambódromo

Foi a primeira vez, em 33 anos, que um prefeito carioca não apareceu na Marquês de Sapucaí; durante o feriado, ele foi a evento de tênis

Roberta Pennafort e Constança Rezende, RIO

02 Março 2017 | 00h47

RIO - Pressionado a justificar sua ausência na Marquês de Sapucaí para os desfiles das escolas de samba do Rio, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) afirmou nessa quarta-feira, 1.º, por nota que seria “demagogia” se comparecesse ao Sambódromo. Em tom irritado e duro, declarou no texto que esse tipo de comportamento político “ atinge os bons que se deixam enganar”, “envolve os desinformados” e “acaba dominando os próprios demagogos”.

“A demagogia é a máscara da democracia. E o povo do Rio rejeita um prefeito com máscara ainda que seja no carnaval", afirmou, no texto. Mais cedo, em comemoração pelo aniversário da cidade no Monumento a Estácio de Sá, quando lhe perguntaram o motivo da ausência, respondeu que ninguém deve ser “obrigado a fazer nada”. Foi a primeira vez, em 33 anos de sambódromo, em que o prefeito não participou da abertura do carnaval, que é o principal evento turístico do calendário carioca.

“Tem uma agenda do prefeito que deve ser cumprida e que não necessariamente deve ser a agenda da imprensa”, afirmou, na celebração dos 452 anos da cidade. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o prefeito  sustentava, enquanto candidato, que não misturaria política e religião. O motivo da resistência seria a condenação, pela IURD, dos quatro dias de festa profana. Foi alvo de muitas críticas nas redes sociais por não ter entregue ao Rei Momo, na sexta-feira passada, a chave simbólica da cidade, gesto que abre a folia.

No sábado, dia de desfiles da série A e com as ruas tomadas por blocos, Crivella compartilhou um vídeo sobre um problema na pista de uma via da zona oeste, com a legenda: “Podem curtir o feriado! Enquanto isso trabalhamos para que a cidade não pare. A gente não sabe sambar, mas sabe trabalhar” 

No domingo de carnaval, o prefeito, em vez de ir aos desfiles, escolheu outro compromisso: a final do torneio de tênis Rio Open. A assessoria de imprensa do prefeito, que mantivera suspense sobre o comparecimento à Passarela do samba, limitou-se a dizer que os desfiles “não constavam de sua agenda”, como faria caso fosse uma data qualquer.

Na segunda-feira, sem divulgar sua agenda publicamente, Crivella visitou pessoas feridas no acidente grave ocorrido na Sapucaí com um carro alegórico. Postou uma mensagem lamentando o infortúnio no Facebook, na qual prestou esclarecimentos sobre as providências tomadas por órgãos municipais. “Eu me certifiquei pessoalmente de que todas as providências foram tomadas para atender as vítimas que visitei no Hospital Miguel Couto e no Souza Aguiar.”

Polêmica. Para a cientista política Mara Telles, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Crivella não agiu como prefeito, mas como um deputado ou vereador, que atende a demandas de grupos específicos. “É algo muito grave. Ele não representa só os seus eleitores. As preferências religiosas do prefeito não podem se colocar assim num estado laico”, analisou Mara. “Ele tem um papel institucional e o carnaval é um evento oficial do calendário da cidade, então é obrigatória, sim, a presença dele, independentemente de seu julgamento moral a respeito da festa”.

O cientista político Luiz Werneck Vianna acredita que as convicções pessoais de Crivella devem ser respeitadas. “O prefeito tem o direito às suas convicções. Todo mundo sabia delas e ele foi eleito. Ele vai correr os riscos eleitorais dessa decisão", afirmou. 

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