FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Em crise financeira, IML do Rio demora 2 dias para liberar corpo

Segundo peritos, parte dos legistas não aceitou parcelamento do 13º e está parada; instituto diz que demanda cresceu

Alfredo Mergulhão, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2015 | 03h00

RIO - A crise financeira do governo do Estado do Rio chegou ao Instituto Médico-Legal (IML), que tem demorado até dois dias para liberar os corpos, provocando fila de carros de funerárias na frente do local, no centro da capital. De acordo com peritos, o motivo da demora é o número reduzido de legistas da Polícia Civil que estão trabalhado. Parte deles não aceitou o parcelamento do 13.º salário dos servidores do Executivo, em cinco vezes.

Na tarde desta quarta-feira, 30, havia seis carros de funerárias parados na frente do IML à espera da liberação de corpos. Os motoristas aguardavam até 4 horas para serem chamados. “Só tem um policial trabalhando na liberação, por isso a demora. Normalmente, são três. Até levei bronca do cemitério por ter atrasado um enterro, na terça-feira”, disse o funcionário de uma funerária que não quis ser identificado.

Os servidores da área administrativa, terceirizados pela empresa Prol, estão com salários atrasados e não trabalharam nesta quarta. "Cheguei e não tinha nem recepcionista. Já se passaram 24 horas e eu não consegui a liberação do corpo do meu irmão. Funcionários dizem que há muitos corpos lá dentro”, queixou-se o analista de sistemas Igor Salgado, de 54 anos.

Nesta quarta, funcionários denunciaram que uma câmara usada para manter os corpos refrigerados está estragada, provocando acúmulo de cadáveres. O corpo de Neuza Ferreira Monteiro, de 74 anos, foi recolhido pelo IML na casa dela, na noite de terça. Mas foi liberado somente às 14h30 desta quarta, mesmo com o enterro marcado para as 15h15. “Passei o dia aqui e não consegui retirar o corpo da minha mãe. Agora passo mais um dia nessa agonia, para fazer o enterro. Não vai dar para velar o corpo”, reclamou a filha de Neuza, a projetista de elétrica Cláudia Monteiro, de 50 anos.

A certidão de óbito de Neuza não aponta a razão pela qual ela morreu. De acordo com o documento, a causa da morte é indeterminada por causa do avançado estado de decomposição do corpo. Para Cláudia, essa situação se deve à demora nos procedimentos do IML. “Eu não posso pagar pela crise, ainda mais na data em que perco minha mãe. Eles (IML) deveriam me dizer pelo menos o motivo da morte”, afirmou Cláudia.

Segundo a Polícia Civil, órgão ao qual o IML está vinculado, o corpo de Neuza chegou em estado de putrefação para passar pela necropsia. E acrescentou que a causa indeterminada significa que a morte foi natural.

Cobrança. Na entrada do instituto, o diretor do IML, Reginaldo Franklin Pereira, foi cobrado pelas famílias para dar celeridade à liberação dos corpos. Ele disse que estava com equipe completa e que os funcionários não estão em greve. Pereira afirmou que a demora no atendimento foi causada pelo aumento de demanda, com muitas necropsias a serem feitas. O diretor negou que haja superlotação de cadáveres e que a geladeira esteja danificada. “O que houve foi uma pequena avaria em uma geladeira, mas este problema já foi resolvido. E não há corpos apodrecendo aqui dentro. O que acontece é que o forte calor acelera a evolução do cadáver. Só que isso não significa que os corpos estão em putrefação”, argumentou o diretor do IML. 

Diretor da Associação dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro, Thiago Dutra classificou como “pessoal” a insatisfação com o parcelamento do 13.º salário e pontuou que isso não afeta o trabalho dos legistas. A empresa Prol não atendeu a reportagem. A Secretaria Estadual da Fazenda informou que não tinha como levantar se o governo está em dívida com a empresa e afirmou que, caso haja pagamentos em atraso, eles “serão realizados o mais rapidamente possível, assim que houver disponibilidade de recursos em caixa”.

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