WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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PSOL se mobiliza contra notícias falsas sobre Marielle; 11 mil denúncias já foram feitas

Advogadas do partido reúnem provas contra autores de acusações sem provas; até o momento, 11 mil denúncias foram feitas

Fabiana Cambricoli, Fábio Grellet e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 03h00

RIO - O departamento jurídico do PSOL e familiares de Marielle Franco iniciaram uma mobilização para coletar provas e denunciar pessoas que têm usado as redes sociais para compartilhar informações falsas e difamar a vereadora, assassinada na última quarta-feira, 14, no Rio. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, também foi morto no atentado.

Em mensagens publicadas no Facebook e no Twitter e áudios enviados pelo aplicativo Whatsapp, internautas têm divulgado informações - sem nenhuma comprovação - de que Marielle teria ligação com o crime organizado e que sua morte estaria relacionada a esse envolvimento.

Em um dos áudios, um homem não identificado diz que a vereadora só foi eleita porque tinha apoio do Comando Vermelho. A tese foi reproduzida por uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) em uma postagem no Facebook. “A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores”, escreveu a juíza Marília Castro Neves.

O deputado Alberto Fraga (DEM-DF) foi outro que reproduziu fake news em uma de suas redes sociais. Após a morte de Marielle, o parlamentar escreveu em sua conta no Twitter que, além de ser ligada ao Comando Vermelho, a vereadora era usuária de drogas e foi ex-mulher do traficante Marcinho VP.

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Estas e outras publicações semelhantes geraram revolta nas redes sociais e fizeram a equipe jurídica do PSOL criar uma força-tarefa para identificar os autores de informações mentirosas e difamatórias contra Marielle e denunciá-los à Polícia Civil. O partido pede que cópias de posts de ódio e fake news sejam enviadas para o e-mail: contato@ejsadvogadas.com.br. Também solicitam que, junto com a cópia do post, os denunciantes enviem o nome e o link do perfil de quem compartilhou a informação ou o número de telefone de quem a mandou para grupos de mensagens.

Segundo Evelyn Melo, advogada representante do PSOL, até este domingo, a equipe já havia recebido mais de 11 mil denúncias. “Ainda temos que filtrar esses e-mails para saber se há várias denúncias sobre os mesmos casos. Vamos nos debruçar sobre isso a partir de segunda-feira, após finalizarmos a reclamação disciplinar contra a desembargadora e enviá-la ao Conselho Nacional de Justiça”, declarou a advogada ao Estado.

As declarações da desembargadora também fizeram o movimento Meu Rio criar um formulário para que as pessoas enviem sua manifestação de indignação aos membros do CNJ. Até as 18 horas deste domingo, quase 43 mil pessoas já haviam apoiado a iniciativa.

Evelyn afirmou que todas as denúncias que configurem atentado à honra e à dignidade de Marielle serão encaminhadas à Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. A advogada disse que o partido prepara ainda ações judiciais para remoção de alguns conteúdos difamatórios e retratação pública dos que ofenderam a vereadora.

Familiares de Marielle também vieram a público contestar as informações falsas que vêm sendo divulgadas. Em sua página no Facebook, a irmã Anielle Silva pediu respeito à família e ao trabalho da vereadora. “Marielle não era bandida, muito menos defendia bandidos. Marielle nunca foi casada ou envolvida com Marcinho VP, Marielle nunca foi usuária de drogas e, pqp, Marielle não foi financiada por facção nenhuma! Eu, Anielle, cansei de fazer campanha, imprimir adesivos e fazer bandeiras com meu salário de professora [sic]”, declarou. “Parem de atacar minha família com ofensas mentirosas”.

O Estado tentou contato com a desembargadora Marília Castro Neves e com o deputado Alberto Fraga, mas não obteve retorno. Ambos deletaram as publicações que atacavam Marielle.

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Combate. Uma equipe voluntários das áreas de comunicação e direito lançou uma página na internet para combater as notícias falsas de difamação da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada na última quarta-feira, 14. A página (www.mariellefranco.com.br/averdade) foi construída com o apoio da família e, inserida no site do mandato de Marielle.

“No dia 14 de março, Marielle Franco foi assassinada a tiros junto com Anderson Gomes, seu motorista, quando voltava de um evento com jovens negras. A dor da sua morte e de tudo o que ela simbolizava desencadeou homenagens emocionadas em redes sociais e grandes manifestações nas ruas pelo Brasil e no mundo. Mas também gerou uma série de acusações falsas sobre a sua história e a sua atuação”, traz a página.

No site, são enumeradas e negadas cinco informações falsas divulgadas em redes sociais. Marielle nunca se relacionou com o traficante Marcinho VP, nem foi eleita pelo Comando Vermelho, não consumia maconha, não defendia bandidos e também não engravidou aos 16 anos, mas aos 18 anos.

“Uma coisa é debater sobre posicionamentos políticos. Outra bem diferente é caluniar, repetir mentiras e desrespeitar a sua memória e o luto de seus familiares e amigos”, afirma a equipe organizadora do site. Na página do mandato de Marielle também são informadas as datas e locais dos protestos pela morte da vereadora.

Entrevista - Anielle Franco, de 33 anos, irmã de Marielle

Como foi a noite do crime?

Uma amiga viu no (site de notícias) G1, ela não falava comigo há muito tempo, mas me ligou e disse: ‘entra na internet aí pra ver uma notícia que eu acho que é mentira’. Eu entrei, peguei o nome da rua e fui até o local. Cheguei lá umas 22h45, esperando que fosse mentira, e infelizmente não era.

Marielle havia recebido alguma ameaça?

Ela nunca recebeu nenhuma ameaça, por isso não tinha medo de andar sozinha. Nunca pensou numa coisa dessas. A gente esteve junto no domingo, 11, depois na terça, 13, e falamos por telefone na quarta, 14, e ela estava muito tranquila.

Como tem sido sua rotina desde então?

Não parei ainda, estou exausta. Alguém da família tinha que tomar a frente para reconhecimento no IML (Instituto Médico Legal), essas coisas. Não tive tempo de passar o luto.

Qual é a importância de manifestações como a deste domingo, 18, na Maré?

A gente é cria da Maré, não tem como não vir. Eu aos dois anos morava no Conjunto Esperança (uma das favelas do complexo). A gente cresceu aqui, a vida dela era cuidar disso, favelados e negros. Estar aqui nessa manifestação diminui um pouco a minha dor.

Como se sente lendo as mensagens caluniosas contra sua irmã?

“Eu prometi a mim mesmo que ia sair do Facebook, não ia mais olhar, mas não aguentei. Fiz uma postagem pública ontem para desmentir, dizer que minha irmã não usava drogas, não foi bancada por facção criminosa, que minha sobrinha não é filha de Marcinho VP. Não vão denegrir a imagem dela dessa maneira.

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