FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Mangueira zombará de corte de verba da prefeitura do Rio em desfile

'Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco!' é o titulo do enredo da agremiação para 2018

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

06 Julho 2017 | 15h57

Uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio - fará 90 anos em 2018 -, a Mangueira zombará, em seu próximo carnaval, do corte de verbas do prefeito Marcelo Crivella (PRB) de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão por agremiação do Grupo Especial. “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco!” é o titulo do enredo, que é explicado assim pela agremiação: “Um enredo que zomba da decisão do atual prefeito, que questiona padrões e modelos, que traz de volta o carnaval enquanto sátira, que traz o desfile enquanto um discurso cultural de teor mais crítico e menos escapista”.

Carnavalesco-sensação do carnaval carioca, Leandro Vieira, autor do enredo, vem dando declarações públicas críticas a Crivella, diferentemente de seus pares e dos presidentes das escolas, que tradicionalmente procuram não bater de frente com a prefeitura. O prefeito é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que condena o carnaval como “festa da carne”. Ele alegou que precisava da verba do carnaval para investir em creches municipais.

Segundo Vieira, “a Mangueira fará um carnaval sem hipocrisias e livre do bom-mocismo, que questiona não apenas um prefeito que ‘vilaniza’ o carnaval, os desfiles, e as manifestações espontâneas plurais usando argumentos demagogos, mas que também coloca em cheque o atual modelo em que os desfiles das Escolas estão inseridos.”

Ele busca a reaproximação das escolas do público, que vem perdendo os interesses nos desfiles nos últimos anos. Um dado disso é o tom dos comentários de apoio à medida do prefeito, que classificam a apresentação como algo supérfluo. “O ‘divórcio’ entre a sociedade carioca e as agremiações tornou-se público em função dos acontecimentos recentes. O desfile que começo a realizar para o carnaval de 2018 joga o carnaval e o modelo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro no ventilador”, disse o carnavalesco. O modelo a que ele se refere é o do desfile-espetáculo, com largo uso de tecnologia e pirotecnia, hoje hegemônico, e que requer grande quantidade de recursos.

Vieira foi campeão pela Verde-e-Rosa em 2016, com um desfile sobre a religiosidade da cantora baiana Maria Bethânia. Aos 34 anos, ele é o mais jovem do sambódromo. Em sua explicação, Leandro lembra que o título do enredo de 2018 saiu da marchinha “Eu brinco”, dos anos 1940. Ela foi composta como forma de ironiza à redução de verbas para o carnaval  pelas autoridades, conforme registros da imprensa da época. A música diz: “Com pandeiro ou sem pandeiro/Ê, ê, ê, ê, eu brinco/ Com dinheiro ou sem dinheiro/Ê, ê, ê, ê, eu brinco (...) Tudo se acaba na vida/Morena querida/ Se o meu dinheiro acabar/ Com dinheiro ou sem dinheiro, meu amor, eu brinco”.

“O enredo que proponho agora é eminentemente crítico. Não apenas ao bispo, que asfixia manifestações plurais nas quais o carnaval e os desfiles assumem destaque e ganham exposição na mídia, mas também ao distanciamento das escolas e do desfile da sociedade como um todo. É o modelo atual de escola de samba ‘jogado no ventilador’. É uma possibilidade do discurso das escolas voltar a se alinhar com a atualidade e levantar questões culturais, mesmo que para isso ela tenha que ‘colocar o dedo’ em suas próprias feridas”, justificou o carnavalesco da Mangueira.

Há duas semanas, ele explicara melhor sua posição à reportagem do Estado: “O carnaval cada vez mais é visto como festa, entretenimento, e não como uma manifestação importante da cultura da cidade. Assim, deixa de ser encarado como uma ópera popular, com todos os seus saberes como definiu Fernando Pamplona (carnavalesco lendário que saiu dos quadros do Teatro Municipal do Rio para os desfiles nos anos 1960). Sou um militante da cultura popular e do carnaval, faço o carnaval em que acredito. Não há hierarquia entre as artes”.

Crivella se reuniu com dirigentes das agremiações semana passada, e ratificou o corte de verbas. Ao anunciar que ajudaria a buscar recursos no setor privado, ele brincou: “Demos o primeiro passo para um acordo. Fundamos o bloco ‘É conversando que a gente se entende’”. O prefeito marcou uma nova reunião para esta semana, mas depois desmarcou.

Na reunião, ele listou os investimentos no sambódromo, como a substituição da iluminação para lâmpadas de LED, a instalação de telões e reparos necessários para 2018, como a reforma de 36 banheiros e dos assentos das arquibancadas - o que custará R$ 1,1 milhão, informou. A secretária Municipal de Fazenda, Maria Eduarda Gouvêa Berto, apresentou números e citou o déficit no orçamento municipal de R$ 3,8 bilhões.

O presidente da Riotur, Marcelo Alves, por sua vez, destacou que pretende aumentar o lucro municipal com os desfiles, comparando-o ao Rock in Rio, festival realizado em setembro. “O desfile das escolas de samba precisa se atualizar num grande projeto de marketing. As grandes marcas querem estar no carnaval. A festa na Sapucaí tem 10 vezes mais potencial de faturamento que o Rock in Rio. Temos que buscar juntos uma solução”, ele disse. Os dirigentes deixaram a reunião dizendo-se otimistas, e que ainda buscavam uma solução que não penalizasse as escolas.

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