AFP PHOTO / Mauro PIMENTEL
AFP PHOTO / Mauro PIMENTEL

Médicos se 'especializam' em baleados na Cidade de Deus

Unidade de Pronto-Atendimento na favela se torna um hospital de campanha durante tiroteios

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 17h57

O centro médico da Cidade de Deus foi projetado para atender pequenas emergências como gripes ou infecções estomacais, mas, nos últimos meses, passou a receber cada vez mais baleados e a ter mais tiroteios como trilha sonora.

Esta pequena unidade no coração da favela se torna praticamente um hospital de campanha nos finais de semana. Na sexta passada, eram só 10 da noite quando entrou cambaleando o primeiro baleado: um homem corpulento de 38 anos com um tiro na mão e machucados por todo o corpo, que deixou um rastro de sangue em direção à "sala vermelha" de emergências.

Enquanto bebês com febre choravam e alguns idosos esperavam para ser atendidos, médicos e enfermeiros se apressavam para dar ao homem os primeiros curativos e levá-lo rapidamente a um dos hospitais próximos, com as equipes de cirurgia necessárias.

A cena voltou a se repetir na madrugada de segunda de forma ainda mais dramática. O intenso tiroteio durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais da Polícia (Bope) contra traficantes paralisou a favela, deixando-a sem aulas, mas não parou esta Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24 horas.

Com apenas quatro camas em sua sala de emergências, chegaram ao centro três baleados quase de forma simultânea. A equipe estabilizou e levou ao hospital um jovem de 17 anos com um disparo no peito, um homem de 63 com um tiro no abdome e uma idosa de 82 anos baleada no tórax enquanto dormia.

"Estamos exercendo uma medicina de guerra, literalmente, porque além dos baleados, as unidades estão localizadas em zonas de conflito", diz Luiz Alexandre Essinger, diretor da entidade que gere a UPA, uma das 14 criadas pela prefeitura do Rio desde 2009 para dar os primeiros socorros dentro das favelas, onde estima-se que vivam um milhão e meio de pessoas.

Os centros médicos, como a UPA da Cidade de Deus, já quase não recebem baleados por revólver ou pistolas nove milímetros. A maioria é ferida por fuzis que podem chegar a perfurar paredes e têm  alcance de quilômetros.

"Antes um paciente baleado chegava na maioria das vezes vivo. Hoje muitas vezes chega morto", resume José Roberto Figueiredo, o chefe médico na Cidade de Deus.

Com o aumento preocupante dos mortos por balas perdidas, esta UPA recebe cada vez mais mulheres feridas por projéteis. Às vezes, também são criadas situações de grande tensão com policiais entrando em busca de bandidos ou traficantes armados que exigem pronto atendimento a baleados.

"Um quis sair daqui e sumir. A violência é enorme, só alcança inocentes", lamenta na sala de espera Rogéria Brites, cozinheira de 57 anos.

Diante deste novo panorama, as equipes médicas de algumas UPA recebem treinamento específico de atendimento a baleados, usando bonecos-robô.

Conseguir o equilíbrio emocional já é mais difícil.

Muitos trabalhadores do ambulatório da Cidade de Deus, a maioria muito jovens, não aguentam a pressão apesar do salário competitivo.

Três deixaram a UPA em junho alegando "medo" e, sempre que são convocados novos profissionais, a Cidade de Deus é uma das últimas praças a ser ocupada.

Iara Viana, médica de 27 anos, recorda ainda nervosa de como no final do ano passado a equipe ficou presa e não pode trocar de turno depois que o Comando Vermelho - que domina a favela - ordenou um toque de recolher, bloqueou ruas e ficou por horas trocando tiros com a polícia.

A realidade supera a ficção nesta favela, conhecida internacionalmente pelo filme "Cidade de Deus" (2002).

"Mas, no fim, é gratificante poder ajudar as pessoas que necessitam realmente. Aqui dá a impressão de que somos médicos de verdade", diz Iara. /CAROLA SOLÉ, AFP

 

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