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Padre é xingado ao citar Marielle Franco durante missa em Ipanema

Dois homens que ofenderam sacerdote foram retirados da igreja; ele mencionou também Martin Luther King, Óscar Romero e Jesus

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 18h54

RIO - O padre Mario de França Miranda, de 81 anos, foi interrompido e xingado por dois homens enquanto celebrava uma missa em uma igreja de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, na manhã deste domingo, 18, após citar a morte da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL). Os dois foram retirados da igreja, e o sacerdote continuou a celebração. O caso não foi denunciado à Polícia Civil. O padre responsável pela paróquia lamentou o fato de nenhum fiel ter defendido Miranda.

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O padre de 81 anos, que também é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), estava celebrando a missa das 10h30 na Paróquia da Ressurreição, quando, durante a homilia, citou a vereadora assassinada na última quarta-feira, 14, no centro do Rio.

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"Fiz a homilia normal, explicando um pouco o texto, e citei Martin Luther King, dom Óscar Romero e pessoas que estão tentando melhorar a sociedade, como Jesus também tentou melhorar e foi assassinado precocemente. O Evangelho fala que o grão cai na terra e dá frutos. Então, eu falei que frutos são esses. Mostrei que quando se mata uma pessoa parece que tudo termina, mas não. No caso de Jesus, ele influenciou toda a humanidade", contou o padre, em entrevista ao jornal O Globo. "E frutos também são aquelas pessoas que tentam seguir esse exemplo: que têm uma vida difícil, mas com sentido, e que causam muita paz por fazer o bem."

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Quando citou Marielle, dois homens começaram a gritar "Padre filho da puta" e outros xingamentos.

"Quando houve a reação dos dois homens tinha umas 500 pessoas na igreja e eu pensei: tenho que tocar a missa. Não ia ficar preso a um tumulto que lá no fundo da igreja apareceu. Duas pessoas revoltadas. Me xingaram de tudo. Depois nem quiseram me dizer os palavrões. Logo, eles foram retirados da igreja e eu consegui recolocar a missa em oração", afirmou à reportagem.

Ao final da missa, fiéis se solidarizaram com o padre e o parabenizaram pela homilia.

Rede social

O padre José Roberto Devellard, responsável pela Paróquia da Ressurreição, comentou o caso em texto postado no Facebook. Ele não presenciou o episódio, mas disse que "o sacerdote não falou de partidos nem de ideologias".

"No Evangelho João 12, 20-33 ao entrar no Espírito da Semana Santa, os versículos 24 e 25 falam do grão de trigo, que ao morrer produz frutos. O sacerdote deu vários exemplos, entre tantos o da vereadora Marielle. A homilia foi interrompida por uma pessoa da assembleia, que não gostando usou palavras de baixo calão para ofender o sacerdote, profanando assim o templo", escreveu. "O padre Mário França é um dos melhores teólogos do Brasil. Foi membro da comissão de teólogos de todo o mundo. Recebeu o Prêmio Cardeal Ratzinger de teologia como bons serviços prestados à teologia. Uma preocupação assustou-me: ninguém foi capaz de levantar a voz na igreja para defender o sacerdote!"

O texto, publicado no perfil da Igreja da Ressurreição e acessível a todos, havia gerado 30 comentários até as 17h30 desta segunda-feira, 19, a maioria defendendo o padre. O primeiro deles, no entanto, é uma crítica ao sacerdote. "A igreja não deve se meter com política, ainda mais com essa onda de divisão da sociedade implantada pelo governo.... Erro do padre, erro da Igreja", escreveu um internauta.

"Deveriam todos respeitar a igreja, mas não aceito o padre falar dessa senhora, quando estamos vivendo um massacre. Deveria o padre falar em nome de todos... policiais, médico morto na lagoa etc", escreveu outra pessoa.

A respeito deste último comentário, um internauta alertou: "Cuidado, há um morcego entre os passarinhos!".

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