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Página virtual revela outra Cidade de Deus

Iniciativa na rede social derruba estereótipos de violência na comunidade carioca e leva esperança a moradores do lugar

Marcos Vinícius Aragão Furtado *, Especial para o Estado

09 Dezembro 2016 | 03h00

O mapa, na parede do quarto transformado em escritório, revela a inspiração bíblica no nome das ruas. Abraão, Moisés, Davi... A maioria faz referência a personagens bíblicos, sugerindo que ali é a Cidade de Deus, bairro da zona oeste do Rio. Lá, a estudante de Jornalismo Carla Siccos, de 34 anos, responde aos comentários dos internautas preocupados com o desaparecimento de um rapaz. “Pedimos a todos que, se souberem de algo, façam contato com os familiares”, orienta a página nas redes sociais do CDD (Cidade de Deus) Acontece.

Em 2011, durante uma conversa com familiares, Carla observou que eles desconheciam os projetos do bairro. “Esse momento me fez perceber o quanto a comunidade era carente de informação.” Por isso, ela criou no mesmo ano o CDD Acontece, para divulgar informações e prestar serviços à comunidade, que vão desde anúncios de desaparecimento a vagas de emprego. Nos cinco anos de existência do canal, Carla desempenha todas as tarefas sozinha. 

Atualmente, a página no Facebook tem mais de 74 mil seguidores. O CDD Acontece está presente também no Instagram, no Twitter e tem um aplicativo que soma cerca de 7 mil downloads. Na lista de transmissão no WhatsApp, já são 4.200 contatos.

Moradora da Cidade de Deus, a artesã Cláudia da Silva, de 52 anos, é uma das que aprovam o canal. “Antes do CDD Acontece, eu não sabia da metade das boas iniciativas do bairro”, confessa. Segundo Márcio Gonçalves, doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o informativo virtual é muito importante, pois consegue contemplar lugares que a mídia, geralmente, não alcança. “As pessoas querem ter a voz ampliada. Uma página em rede social permite interação e, de certa forma, a publicação de notícias sem muito filtro”, analisa Gonçalves. 

Nos domingos à noite, é comum encontrar pessoas conversando em bares e nas portas das casas. Muito diferente do cenário de violência divulgado internacionalmente por meio do filme homônimo de Fernando Meirelles. “Um dos objetivos do canal é tirar esse estereótipo de favela violenta. Fomos apresentados ao mundo de uma forma muito ruim”, observa Carla.

Segundo levantamento do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP), entre 2012 e 2014, houve uma redução de aproximadamente 16% nas ocorrências de crimes violentos, que vão de estupro a lesão corporal seguida de morte, na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro. 

Por causa da atuação na comunidade, o CDD Acontece recebeu, em março, o prêmio Lions do Brasil. Além disso, o canal é também fonte de inspiração para outras iniciativas virtuais em comunidades, como relata Ana Muza, fundadora do PPG Informativo, canal de informação das comunidades do Pavão Pavãozinho e Cantagalo, na zona sul do Rio. “Há dois anos conheci a Carla. Com esse contato, obtive mais orientação para gerenciar uma página em rede social no segmento jornalístico e comunitário”, explica Ana. 

O trabalho do CDD Acontece também chamou a atenção de 15 jornalistas de sete países - Austrália, Canadá, República Checa, Estados Unidos, Holanda, Inglaterra e França -, que visitaram o bairro a convite da ONG Comunidades Catalizadoras (ComCat). O objetivo da instituição é eliminar o estigma das favelas, integrando-as à sociedade. Theresa Williamson, diretora executiva da ComCat, considera o CDD Acontece uma referência mundial. “Como instrumento de mídia comunitária é um dos maiores e com grande alcance no Facebook”, analisa.

*Marcos Vinícius Aragão Furtado foi o vencedor do 11º Prêmio Santander Jovem Jornalista.

A fase final e a cerimônia de premiação ocorreram na quinta-feira, 8, na sede do banco, com a participação do diretor de Jornalismo do Grupo Estado, João Caminoto e de Marcos Madureira, vice-presidente executivo de Comunicação, Marketing, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Santander. Os finalistas receberam laptops e garantiram a publicação de suas matérias. 

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