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Rocinha já teve oito ‘chefes’ do tráfico desde os anos 1980

Criminosos se alternam no controle do comércio de drogas e se matam para manter ou conquistar o poder

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 04h00

RIO - Era madrugada de 9 de novembro de 2011 quando o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, foi preso no porta-malas do carro de um de seus advogados, na zona sul do Rio. O motorista chegou a oferecer R$ 30 mil em propina aos policiais. Nada feito, e o bandido mais procurado do Rio à época acabou na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO). Dez meses depois, a favela recebia a maior Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Estado e o então governador Sergio Cabral (PMDB) comemorava. “Espero que, no futuro, essas crianças não tenham em sua memória nenhum tipo de conflito e atuação do poder paralelo.”

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Apesar da ocupação por 700 policiais, os filhos da Rocinha cresceram sob o jugo de outro criminoso. Após cinco anos, o “inimigo número 1” do Estado passou a ser o ex-comparsa de Nem - Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157. A disputa violenta pela sucessão no comando do lucrativo tráfico de drogas na favela não é novidade. Antes de Nem e Rogério, outros chefes se revezaram no controle do lucrativo comércio de entorpecentes da favela - e às vezes mataram uns aos outros para mantê-lo ou conquistá-lo. Uns, de perfil assistencialista, tiveram maior aceitação pela população; outros, mais violentos, se impuseram pelo terror. Todos eram calcados nas relações promíscuas com policiais corruptos. 

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A “tradição” remonta a 1980 e remete a Denir Leandro da Silva, o Dênis, preso em 1987, mas influente até ser morto, em 2001, na prisão. Na ocasião, a favela amanheceu com bandeiras pretas estendidas e comerciantes fecharam as portas, em luto forçado pelo tráfico. 

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Encravada entre a Gávea, bairro de artistas, e São Conrado, terra dos condomínios fechados, e à beira de uma via que leva à Barra da Tijuca, a Rocinha na virada para os anos 1990 já era um entreposto de venda de maconha e cocaína. Ali, consumidores do “asfalto” chegavam sem dificuldade. Os fuzis começavam a surgir em maior número. 

De lá para cá, sucederam-se no topo cinco traficantes até a ascensão de Nem. Todos, à exceção do último, foram mortos, pela polícia ou por comparsas. “A Rocinha é um lucrativo empório de drogas desde o fim dos anos 1970. Por isso há sempre a cobiça de quadrilhas diferentes e dentro do mesmo comando”, aponta a socióloga Alba Zaluar, que pesquisa as dinâmicas do tráfico há três décadas. “O Dênis matou o ‘fiel’ (comparsa), depois foi morto. O Dudu invadiu para tomar do Lulu. Nem está sendo atacado pelo antigo braço direito. A disputa é grande e o poder, frágil.”

Questão crucial. Para a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, o ciclo de violência entre traficantes e deles com as forças de segurança não vai acabar até que se enfrente uma questão crucial: a legalização das drogas. “É preciso que se tenha coragem para dizer o óbvio: não é mais possível manter essa política de confronto. Vêm as Forças Armadas, prendem 13 pessoas, e já tem meia dúzia para disputar o lugar de cada uma delas.”

O mineiro Celso (nome fictício) morou por 40 anos na Rocinha. Mudou-se para um bairro mais tranquilo, em 2004, mas ainda volta ao morro para trabalhar. “A Rocinha foi meu paraíso até a guerra do Dudu com o Lulu (anos 1990). Vi policial ser todo furado de bala na porta da minha casa, algo inimaginável. Meu filho tinha 3 anos e ficou traumatizado, tive de me mudar.” Celso se referia ao episódio da Semana Santa de 2004 em que 12 foram assassinados. “Se você leva a sua vida direito, os bandidos não mexem com você. Quem está mandando não faz tanta diferença. Você sabe que vem um, vem outro, eles sempre vão se suceder. O problema é a bala perdida.”

 

 

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