Arquivo/Estadão
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Só a Portela vai celebrar os 450 anos do Rio de Janeiro

Suíça, Guiné Equatorial e Nelson Mandela são alguns dos enredos escolhidos pelas escolas; carnavalescos divergem sobre adoção de ‘tema único’ para data

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 19h37

 RIO - No carnaval dos 450 anos do Rio, apenas uma das escolas do Grupo Especial, a Portela, louvará a cidade. Além de enredos abstratos e biográficos, a avenida verá homenagens a outras praças: a Beija-Flor retratará a Guiné Equatorial. O Salgueiro foi a Minas buscar os sabores de sua culinária Já a Imperatriz Leopoldinense partirá da figura de Nelson Mandela para falar sobre África, liberdade e preconceito.

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Embora a Prefeitura dê destaque às comemorações dos 450 anos, com calendário de eventos que começou no réveillon e se estende até o carnaval de 2016, as escolas não foram instadas a repetir 1965, nos 400 anos, quando optaram pela apresentação temática. O que pode ser paradoxal, uma vez que os festejos de 50 anos atrás são usados como base para os de 2015.

“Em 2000, por causa dos 500 anos do descobrimento, todas as escolas falaram disso. Em 2008, nos 200 anos da chegada da corte real portuguesa, três fizeram o tema. Repetir isso mais uma vez seria maçante para o público. Nem chegou a ser cogitado”, diz o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, Jorge Castanheira.

A pesquisadora Rachel Valença, que acompanha os desfiles desde os anos 1960, na Avenida Presidente Vargas, discorda. Ela considera que foi perdida a oportunidade de tornar único o carnaval de 2015 e de integrar a folia às celebrações. “Existem diversos aspectos a serem abordados. Em 2000, cada escola ficou com um período da História do Brasil e funcionou bem.”

Homenagem.Em 1965, o dia 1º de março – data do aniversário da cidade – caiu na segunda-feira de carnaval, e as agremiações fizeram pacto de homenagear o Rio. A campeã foi o Salgueiro, que contou a história do carnaval carioca. Mas a escola que entrou para a antologia dos grandes desfiles foi o Império Serrano, embalado pelo samba Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio.

“As pessoas acenavam com lenços quando cantavam os versos ‘a suntuosidade me acenava e alegremente sorria’. Foi lindo”, recorda a historiadora Rosa Maria Araujo, presidente do Museu da Imagem e do Som. Ela se tornou imperiana naquele dia, tamanho o impacto causado pela Verde e Branco.

Rosa Maria também gostaria de ver um carnaval com a temática dos 450 anos: “Seria mais bonito e emocionante. Os desfiles fazem parte da identidade do Rio e do Brasil.Mas é compreensível que, com o carnaval feito com tanta antecedência, as escolas já tivessem compromissos com patrocinadores.”

Nenhuma escola informou oficialmente ter recebido patrocínio. Nem mesmo a Portela, que tem a torcida do prefeito, Eduardo Paes (PMDB), e do governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), e que optou por homenagear o Rio.

“Gostamos de falar do Rio, outras gostam de falar da África. Não teve imposição nem patrocínio, é só o resultado da democracia. O prefeito é portelense, assim como o Chico Buarque é mangueirense. Não interfere”, diz o vice-presidente, Marcos Falcon.

A Beija-Flor não declara ter recebido verba do governo da Guiné Equatorial, país pobre da África Central, governado por um ditador que está no poder desde 1979.O contato da escola com o país vem de 2013, quando sambistas foram levados à capital, Malabo, para uma apresentação. “No ano passado, tivemos nossa pior colocação em 30 anos, 7.º lugar. Quisemos voltar a falar da África porque é um tema que não se esgota. A comunidade se identifica muito”, explica a pesquisadora de enredo da Beija-Flor, Bianca Behrends.

Mauro Quintaes, da comissão de carnaval da Unidos da Tijuca, não confirma se o governo suíço patrocina o enredo, norteado pela figura de Clóvis Bornay (1916-2005), carnavalesco da escola nos anos 1970. O WC1 pai de Bornay era suíço. “Precisávamos de um link entre a Suíça e o carnaval e escolhemos este. Não existe mais preconceito com esse tipo de enredo.”

Autor do tema A Grande Rio é do baralho, o carnavalesco Fábio Ricardo repete a frase que se escuta em todo carnaval: “Não existe enredo ruim”. Para ele, tudo depende do modo como ele é apresentado. “Há oito anos, ganhei o livro O que é baralho e vi que renderia. Tem muito assunto"

No Grupo de Acesso A, que desfila dias 13 e 14 de fevereiro, três escolas (Alegria da Zona Sul, Em Cima da Hora e Estácio de Sá) falarão do Rio. O Grupo Especial se apresenta dias 15 e 16.

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