Sérgio Moraes/ Reuters
Sérgio Moraes/ Reuters

Temporal mata quatro pessoas e leva caos ao Rio

Entre 2009 e 2017, prefeitura gastou menos da metade da verba orçada para enfrentar enchentes

Constança Rezende, Fábio Grellet e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2018 | 07h46

O temporal que atingiu o Rio na noite de quarta-feira, 14, com chuvas intensas na madrugada de quinta-feira, 15, provocou a morte de pelo menos quatro pessoas, derrubou parte da Ciclovia Tim Maia, em São Conrado, e expôs a fragilidade da capital fluminense para enfrentar tempestades. As consequências se prolongaram por todo o dia, com ruas inundadas, casas invadidas pela lama e famílias desalojadas. O caos tomou a cidade após uma década em que os governos Eduardo Paes (MDB), de 2009 a 2016, e Marcelo Crivella (PRB), iniciado em 2017, gastaram menos da metade do dinheiro orçado para enfrentar enchentes.

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A chuva começou às 16 horas de anteontem e chegou ao ápice entre meia-noite e 1 hora de ontem, quando foi registrado o recorde de precipitação na cidade, em 18 anos, para uma hora: 123,6 mm na estação Barra/Riocentro. O recorde anterior, de 2000, era 116,2 mm, em Campo Grande, informou o Alerta Rio. À 0h25, o Centro de Operação Rio decretou "estágio de crise" e a cidade entrou em colapso.

Pela manhã, a Avenida Brasil tinha tráfego parado em um dos sentidos, o ramal de Santa Cruz da Supervia estava parado pela queda de um dirigível, os BRTs Transcarioca e Transoeste apresentavam problemas, e parte da Ciclovia Tim Maia, em São Conrado, desabara. Seis hospitais, entre eles o Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, e o Getúlio Vargas, na Penha, foram invadidos pela água. Bairros e comunidades foram inundadas. Foi o caso de Rio das Pedras, na Barra da Tijuca, onde o rio homônimo transbordou. Moradores ficaram ilhados em suas casas.

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As zonas norte e oeste foram as mais afetadas. Em Quintino, os vizinhos Marcos Garcia, de 59 anos, e Jupira Magalhães, de 62, morreram soterrados por um muro. Moradores descreveram a força da água como a de um tsunami. "Foi repentino", contou o motorista Jorge Luiz Faria Viana, marido de Jupira.

"Começou a chover, estava caindo água na cozinha. Passei a limpar, depois escutei um grito lá fora e vi meu vizinho tentando desentupir o ralo. Quando cheguei lá, vi um homem deitado, e a gente tentou salvar a vida dele. Nesse momento minha mulher gritou, fui atrás dela, porque ela era muito medrosa. O muro desabou sobre ela, foi coisa de segundos. Eu não vi nada, só soube que ela estava morta. Isso nunca mais vai sair do meu peito", disse Viana.

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Em Realengo, na zona oeste, o PM Nilsimar dos Santos, de 48 anos, morreu quando uma árvore caiu sobre o carro dele. Em Cascadura, zona norte, um menino de 12 anos foi soterrado.

Em Jacarepaguá, na Barra e na Piedade, entre 17 horas de anteontem e 2 horas de ontem choveu mais do que o esperado para o mês todo. Considerando todos os bairros do Rio, a média alcançou 75% do que se estimava até o fim de fevereiro. Ventos fortes, de até 95 km/h, derrubaram árvores em mais de 60 ruas.

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A Defesa Civil registrou 345 ocorrências. Moradores tiveram casas danificadas também no Complexo do Alemão e no Morro da Serrinha, na zona norte. Nas vias expressas Linha Amarela, Linha Vermelha e Avenida Brasil, e também em rodovias de acesso ao Rio, houve alagamentos, queda de árvores e pedras. O prefeito Marcelo Crivella, em viagem na Europa, divulgou nota lamentando as mortes.

Verba. Estudo da assessoria da vereadora Teresa Bergher (PSDB) apontou que a gestão Eduardo Paes destinou, em números atualizados, R$ 2,3 bilhões contra enchentes e alagamentos, dos R$ 4,8 bilhões orçados (49%). Já Crivella, em 2017, executou R$ 277,7 milhões dos R$ 600,4 milhões orçados (46%). A prefeitura informou, por nota, que em 2017 todas as pastas tiveram valores contingenciados por causa do "ano atípico, de recessão econômica e queda de receitas". O ex-prefeito Paes não se manifestou.

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Em nota, a assessoria da prefeitura informou que “a pedido do prefeito Marcelo Crivella, que mesmo no exterior tem monitorado todas as ações da Prefeitura, os secretários municipais Paulo Messina (Casa Civil) e Jorge Felippe Neto (Conservação e Meio Ambiente) estão desde a madrugada no COR (Centro de Operações Rio) para coordenar o trabalho das equipes que atuam para minimizar os transtornos causados pela tempestade”.

“Assim que o alerta de estágio de crise para a chuva intensa foi dado, a Defesa Civil Municipal foi colocada de prontidão para atuar prontamente em caso de acidentes graves. Outros órgãos, como a secretaria de Saúde, Comlurb, CET-Rio e GeoRio, também estão em ação”, afirmou a assessoria do prefeito.  / COLABOROU MARCIO DOLZAN

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