FABIO MOTTA RAQUEL PORTUGAL E RODRIGO MÉXAS
FABIO MOTTA RAQUEL PORTUGAL E RODRIGO MÉXAS

UFRJ sofre o maior furto de livros raros do Brasil

Retirada de 303 obras é a maior registrada. Suspeito é ladrão famoso, que terá vida retratada em filme financiado com verba pública – o que revoltou vítima

Vitor Hugo Brandalise e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2017 | 03h00

A antiga Biblioteca Central da Universidade do Brasil – atual Biblioteca Pedro Calmon, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que abriga raridades do tempo do Império – foi furtada no ano passado, e agora, terminado o levantamento do que sumiu das prateleiras, o que se descobriu é um espanto: o maior furto de livros raros já registrado no País.

Desapareceram 303 obras raras, entre elas os 16 volumes da primeira edição dos Sermões de padre Antônio Vieira (1679) e quase toda a coleção Brasiliana do acervo, composta por livros de viajantes europeus que registraram flora, fauna e costumes do País dos séculos 17 ao 19. Sumiram preciosidades como Expédition dans les parties centrales de l’Amérique du Sud (1850-1859), do naturalista inglês Francis de Castelnau, com centenas de litografias pintadas a mão; os quatro volumes de um livro do etnógrafo alemão Thomas Koch-Grümberg, pioneiro da fotografia antropológica, com 141 fotos de indígenas da região dos rios Japurá e Negro, na Amazônia, retratados entre 1903 e 1905. O principal alvo foram obras com gravuras, que costumam ser cortadas a navalha e vendidas separadas.

A suspeita é de que o furto tenha se desenrolado ao longo de meses, durante uma reforma no prédio, em 2016. As estantes foram fechadas com bolsas de plástico preto – e foi dentro delas que os ladrões trabalharam.

A princípio, o crime parecia pequeno. Dois criminosos – Laéssio Rodrigues de Oliveira, 44 anos, ex-estudante de biblioteconomia envolvido em furtos de livros desde 2004, e Valnique Bueno, seu comparsa – foram presos pela polícia paulista em novembro, por furtar obras das faculdades de Arquitetura e Direito da USP. Como havia com eles cinco raridades da UFRJ, deu-se o alarme na Praia Vermelha. Hoje, seis meses depois, com o inventário feito, entende-se a dimensão do rombo, bem maior do que uma dezena de exemplares – além dos 303 raros, sumiram ainda outros 120 livros antigos. Não há estimativa oficial de valores, mas, no mercado, é possível ter uma ideia: apenas os 27 livros apontados como “mais raros” entre os furtados valem entre R$ 380 mil e R$ 500 mil, segundo um avaliador consultado pelo Estado.

“O ladrão sabia o que roubar, não pegou a esmo”, diz o delegado Marcelo Gondim Monteiro, titular da Delegacia de Atendimento ao Turista de São Paulo, que prendeu Laéssio e seu comparsa em novembro. “Câmeras de segurança mostram claramente a dupla furtando as bibliotecas da USP. Já na UFRJ não há imagens, mas o prendemos por receptação. A ligação ao furto no Rio são os próprios livros encontrados com ele, além de vários ex-libris retirados de livros da UFRJ jogados em uma lixeira na casa dele”, diz o delegado. Em março, outros três livros da Pedro Calmon foram recuperados pela Receita – seguiam à Europa e tinham como remetente o CPF de Laéssio. Como ocorreu em uma instituição do governo, a investigação passou para Polícia Federal, no Rio.

Figura conhecida. Ainda sem saber do estrago do furto na instituição carioca, quem trabalha na área comemorou a prisão de Laéssio. Ele é velho conhecido da classe, envolvido em crimes do tipo desde 2004 – foi condenado pelo menos três vezes por furto e receptação de livros raros e indiciado pela mesma razão “inúmeras vezes” no Brasil todo, como indica uma das decisões judiciais. Os maiores acervos de livros do País já foram suas vítimas, como Biblioteca Mário de Andrade, Museu Nacional, Biblioteca Nacional, Museu Histórico Nacional, Fundação Oswaldo Cruz, Biblioteca Pública do Paraná e Palácio do Itamaraty, entre outros.

A maior parte dos livros subtraídos nunca foi recuperada – o índice de recuperação é de 40%, segundo Raphael Greenhalgh, da Universidade de Brasília (UnB), autor de tese de doutorado sobre a “economia do crime” em roubos de livros, em que analisa os maiores furtos de livros raros do País – nenhum tão numeroso quanto o da UFRJ . Quando retornam, é comum que venham adulterados. Em um dos crimes pelos quais Laéssio foi condenado, por furtar o Museu Nacional, 14 livros raros tiveram as ilustrações navalhadas.

O filme. Com o novo crime, o pessoal das bibliotecas voltou a atentar para Laéssio – e o que descobriram causou revolta. A vida do criminoso vai virar filme, financiado com dinheiro público. “Confissões de um Ladrão de Livros” é o título do projeto, apresentado à Agência Nacional do Cinema (Ancine) pela Boutique Filmes. A agência autorizou captação de patrocínio de R$ 771 mil por meio da Lei do Audiovisual, que prevê isenção fiscal. Até aqui a produtora recebeu R$ 600 mil para o projeto, da Globo Filmes e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O fato de um notório ladrão de acervos públicos receber apoio do governo para ter sua vida retratada em filme levou vítimas a se unirem para protestar. A Câmara Técnica de Segurança de Acervos do Arquivo Nacional, ligada ao Ministério da Justiça, prepara um documento de repúdio à produção. “Vamos nos mobilizar contra o que nos parece um escárnio. Procuraremos o Ministério da Cultura, os patrocinadores e vamos preparar cartas das instituições já prejudicadas por ele”, afirma Marcelo Lima, integrante da Câmara Técnica e coordenador de acervo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “Nada contra fazer filme sobre criminosos. Mas, ao autorizar um patrocínio como esse, a Ancine chancela os danos ao patrimônio público.”

A sinopse do filme também causa descontentamento. Alguns trechos: “O melhor de tudo é que Laéssio é real, de carne e osso, e sua escalada no crime pode ser atestada por matérias jornalísticas, inquéritos policiais e processos judiciais (...)” e “ao longo de sua caminhada, Laéssio compôs um portfólio incalculável (...)”. Para as vítimas, são sinais de que o filme pode glamourizar a vida do ladrão. “Falta só colocar um nariz de palhaço nos servidores. É o fim da picada”, diz a bibliotecária Maria José da Silva Fernandes, diretora de acervo da Biblioteca Nacional. “Não é uma espécie de Robin Hood dos livros. O que ele faz é dilapidar as obras, retirá-las de uma instituição pública para vender a um colecionador particular”, afirma Luiz Armando Bagolin, ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade. “Tentei durante anos usar leis de incentivo fiscal para digitalizar o acervo, e não consegui. E agora o responsável por desgraças à cultura nacional consegue?”, diz José Tavares Filho, bibliotecário responsável pelo acervo da Pedro Calmon, na UFRJ.

A Boutique Filmes afirma que a sinopse foi feita antes de a produção começar de fato, e o resultado não será a glamourização da vida de Laéssio (leia mais aqui).

Após o furto do ano passado, a UFRJ reforçou as trancas em portas e janelas da Pedro Calmon, e está instalando novas câmeras. Um último pente fino será feito em algumas coleções, para verificar se mais volumes sumiram. Quanto a Laéssio, apareceu outra novidade no início do mês: ele já respondia em liberdade aos casos da USP e UFRJ, mas foi preso de novo, no Rio, condenado pela Justiça Federal pelo furto ao Museu Nacional, em 2004. A pena é de 10 anos de cadeia, por furto qualificado com agravantes como “sério menosprezo à memória nacional”.

Os que cuidam dessa memória celebraram um pouco, mas continuam céticos: a sensação geral entre os bibliotecários é de que, como um deles escreveu, “roubar livros não dá cana no Brasil”.

Veja abaixo a lista completa das obras furtadas:

Caso esses livros sejam identificados, entre em contato com a Biblioteca Pedro Calmon, da UFRJ, pelos telefones 21 2295-2346 e 21 2295-1397.

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‘Filme não vai glamourizar ninguém’

Produtora afirma que obra provocará reflexão sobre mercado negro de livros e falhas na preservação de acervos

Vitor Hugo Brandalise e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2017 | 03h00

O filme sobre a vida do “maior ladrão de livros do Brasil” está sendo editado em uma casa na Vila Madalena, zona oeste da capital, onde fica a produtora Boutique Filmes, que realiza documentários, programas infantis e séries de televisão. O produtor e um dos diretores da obra (na verdade um documentário sobre Laéssio Rodrigues de Oliveira) garantem que o que sairá dali é um material jornalístico que, além de contar a história do criminoso, mostrará o mercado negro de obras raras do Brasil e a falta de estrutura para preservação do patrimônio cultural do País. Assim, para eles, o interesse público por esses temas justificaria investimentos via instrumentos de captação dos recursos públicos.

A ideia da produção partiu do jornalista Carlos Juliano Barros, que conheceu a história de Laéssio em reportagens. Ao longo de “muito tempo”, conseguiu convencê-lo a gravar entrevistas e a ajudar a montar o documentário, que codirige.

“Ele tem uma história ímpar”, afirma, ao falar da origem pobre de Laéssio, em São Bernardo do Campo à chegada aos círculos sociais que compram esses itens. “A forma como ele fez, as pessoas com quem se relacionou, a quem vendeu os livros que furtou. O trabalho do filme é investigar e contar a história, trazer à tona fatos nunca revelados”, defende.

O produtor, Gustavo Mello, afirma que o filme não pretende “nem glamourizar nem vitimizar nem culpar ninguém”, ao falar tanto de Laéssio quanto das instituições que tiveram as obras furtadas – e que estão revoltadas com a produção. “Se a gente alcançar audiência, no fim o que estará em debate é a questão da importância de um livro raro e do seu valor simbólico e econômico. Se chegarmos a esse resultado vai ser incrível, pois será uma grande história contribuindo para uma discussão da sociedade.”

Financiamento. Mello afirma não ver problemas em captar recursos por leis de incentivo. A produtora fechou parceria com a Globo Filmes e a GloboNews para a produção e prevê a inscrição da obra em festivais, no segundo semestre, e exibição no canal de notícias.

“Parece que esse tipo de afirmação (de que a vida de um criminoso que lesa o Estado não deve virar filme bancado com recursos públicos) é de quem não conhece a seriedade do nosso trabalho nem a relevância de um documentário, do jornalismo bem feito”, diz Mello. E afirma: “As instituições (que se movimentam contra a obra) vão gostar do filme.”

Por meio de nota, a Globo Filmes afirmou que investe em documentários que “provoquem discussões” ou mesmo sobre “vilões que hoje estão respondendo por seus delitos” e conta com “incentivo da Lei do Audiovisual, Artigo 3 A, como é de praxe do mercado”. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou que o projeto “se enquadra em todas as normas” e, por isso, foi aprovado.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) afirmou que apoiou a produção por meio de programa que estimula “não uma obra específica, mas planos de negócios das empresas” e a Boutique Filmes tem realizado “produções bem-sucedidas, de qualidade reconhecida”. Afirmou ainda que valoriza a “reflexão sobre questões importantes” e que “não cabe ao banco, em casos como este, rejeitar o projeto por sua temática”.

 

 

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