Ana Branco/Agência O Globo
Ana Branco/Agência O Globo

'Vivemos uma crise na segurança. A polícia sangra', diz secretário do Rio

Roberto Sá criticou a progressão de regime para assassinos durante velório de policiais militares mortos após queda de helicóptero

Entrevista com

Roberto Sá

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2016 | 06h50

RIO - O secretário de Estado de Segurança do Rio, Roberto Sá, defendeu neste domingo, 20, um “novo pacto” para enfrentar a crise de segurança pública que afeta o País. Ele criticou as progressões de regime para presos que cometeram assassinatos. Na tarde deste domingo, Sá participou do velório coletivo de três dos quatro policiais militares mortos na queda do helicóptero, no sábado, na Cidade de Deus.

Em 2016, 124 PMs foram mortos no Estado do Rio, dos quais 33 estavam em serviço. De acordo com o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança, em 2015 foram 87. Desses, 23 estavam trabalhando. “A polícia sangra”, disse Sá.

O que o senhor tem a dizer sobre as mortes desses policiais?

Ontem eu começava lamentando as mortes de cinco policiais militares (quatro morreram na queda do helicóptero na Cidade de Deus e outro em um ataque no Méier, zona norte), e hoje eu começo lamentando as mortes dos nossos 124 policiais militares neste ano. São 33 em serviço. É inaceitável o tanto de policiais que morrem no Brasil. Mas também é inaceitável o número de mortes violentas por causas externas de todas as pessoas.

Qual a análise que o senhor faz desse momento?

Eu sempre falei, mas infelizmente essa fala não encontra eco: a gente vive no Brasil uma crise de segurança pública. E a gente tem de rever, tem de ter um novo pacto. A polícia sangra. Nós temos verdadeiros heróis morrendo de forma anônima todos os dias. Ontem tivemos mais cinco. Eu já perdi a conta de policiais que eu já enterrei na minha vida profissional. O que eu digo para uma família de um policial que se foi? Não aguento mais entregar quepe e bandeira para mãe, mulher e filho de policial.

Qual é a sua proposta?

Nós temos de decidir no Brasil o que nós queremos para o criminoso violento, aquele que tira a vida de alguém. Quanto tempo vocês acham que essa pessoa tem de ficar presa? Temos de rever tudo. Presos que cometem pequenos furtos têm de ter medidas alternativas. Pessoas que tiram a vida de alguém têm de ficar presas muito tempo, sim. O (traficante) Fu da Mineira (Ricardo Chaves de Castro Lima) e o (também traficante) Claudinho (Cláudio José de Souza Fontarigo), somando a pena dos dois, foram condenados a 160 anos, mas saíram (do Presídio Federal de Porto Velho) para visitar a mãe e tocaram o terror. Até quando vamos enterrar inocentes por esse quadro no Brasil? Eu peço à sociedade para exigir discussão nacional sobre o que fazer com quem tira a vida dos outros.

Os policiais no helicóptero foram mortos a tiros?

O laudo de autópsia da perícia já saiu. Não há perfuração por arma de fogo nos corpos. A perícia na aeronave está sendo feita pela Aeronáutica. Até o momento (ontem), não se encontrou nenhum tipo de perfuração, mas é muito cedo ainda para qualquer conclusão. A perícia vai levar mais tempo. Não se descarta nada.

Pode ter havido falta de manutenção ou problema na condução da aeronave?

Tudo é possível. A curiosidade de vocês também é a minha. Estamos ansiosos pela conclusão desse laudo. A Polícia Militar me garantiu: a aeronave não levanta voo se tudo não estiver em dia. Ou seja, em tese as manutenções estão todas em dia. A gente precisa aguardar o laudo da perícia.

Em relação às mortes na Cidade de Deus, as famílias dizem que alguns sofreram facadas, outros estão sem roupas. O senhor tem informações sobre as circunstâncias das mortes?

Ainda não. Já falei com o delegado Rivaldo Barbosa, titular da Divisão de Homicídios, e tenho certeza de que eles não vão deixar sem respostas essas mortes dessas pessoas que foram encontradas na Cidade de Deus. Podem ter certeza, estamos aqui para preservar vidas. Nenhum excesso será tolerado, nenhum excesso vai ficar impune. Eu confio muito no trabalho da Divisão de Homicídios.

O que iniciou os confrontos na Cidade de Deus?

No sábado pela manhã houve denúncia e uma patrulha foi checar. Essa patrulha foi alvejada. A PM estabilizou esse confronto sem presos. À tarde, houve novo confronto e a PM acionou as aeronaves de apoio de tropa e a plataforma de observação (a que caiu) porque a situação estava ficando séria. A notícia era de que traficantes do Comando Vermelho tinham tentado invadir uma área de milícia. O setor de inteligência acompanha essa instabilidade.

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