No tempo dos lambe-lambes

Estadão

29 Março 2012 | 10h37

Lambe-lambe em ação

 

Por muito tempo, os lambe-lambes foram a certeza de um dia bonito. Por um motivo simples: só com a luz do sol eles conseguiam pôr para funcionar em jardins, praças e outras áreas públicas sua caixa de fazer retratos. Posicionada sobre um tripé, ela servia ao mesmo tempo como câmera e laboratório. Feita geralmente de madeira, tinha apenas uma objetiva, sem filtros nem fotômetros, e guardava duas bandejas com líquidos que serviam para dar “banhos” na foto – um revelador, outro fixador. Ao lado da câmera, esses profissionais de rua deixavam ainda um balde com água limpa, para um terceiro e último banho. Em seguida, penduravam as fotos para secar.

Os lambe-lambes também deixavam pendurado na câmera-caixote um camisão preto com três aberturas, onde enfiavam a cabeça e os braços na hora de bater e revelar as fotografias. A função da camisa era proteger as fotografias de qualquer tipo de claridade e evitar que velassem. Era, em resumo, um equipamento que para os padrões digitais de hoje parece pré-histórico, mas na época impressionava os clientes e dava prestígio aos fotógrafos.

A origem dessa máquina-caixote, segundo o pesquisador Boris Kossoy, está ligada à vinda do italiano Francisco Bernardi ao Brasil em meados dos anos 1910. Natural de Bolonha, ele trabalhava como fabricante de acessórios fotográficos. Em São Paulo, passou a atuar também como fotógrafo e, cansado de ter de carregar pesados equipamentos de um local a outro, começou a pesquisar um jeito de ter os materiais de revelação na própria máquina. Surgia a câmera de jardim, depois simplificada e aperfeiçoada. Nas mãos dos lambe-lambes, montadas e remontadas várias vezes, elas ganhavam revestimentos de madeira, couro, metal e outros toques artesanais.

O que os estudiosos não têm certeza é sobre quem batizou esses fotógrafos de jardim como lambe-lambes. A maioria diz que o nome surgiu porque, para saber de qual lado da placa de vidro estava o material sensível, eles usavam a própria saliva, seja lambendo a placa, seja pressionando um dos cantos com o indicador e o polegar molhados antes nos lábios. Como contém cloreto de sódio, a saliva gerava uma reação química que marcava o lado da emulsão. Todo o processo tinha de ser feito no escuro e a língua era importante para que a placa fosse colocada na posição correta. Sendo de vidro, no caso de trincar, a marca ficava impressa na fotografia, como se pode ver na foto abaixo de um casal de idosos. Ele de barba branca sentado numa cadeira, ela de pé ao lado.

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