Ascensão e queda do Carandiru: da primeira pedra ao massacre

Ascensão e queda do Carandiru: da primeira pedra ao massacre

Lizbeth Batista

13 de maio de 2011 | 13h00

Há cem anos, um ato solene marcava o início da construção da Penitenciária do Estado de S.Paulo.  Em 13 de maio de 1911, a primeira pedra do Complexo Penitenciário do Carandiru era colocada.

O Estado noticiou o evento.  Nas suas páginas, publicou a planta da moderna penitenciária, na sua matéria exaltou o “progresso social” que esta representava.

Sabbado, 13 de maio de 1911

Na virada do século,  São Paulo vivia um período de  desenvolvimento econômico , que  se beneficiava e estimulava o crescimento populacional da região.

Um maior índice populacional significou aumento na criminalidade.  A falta de estabelecimentos prisionais adequados às necessidades do Estado era um problema.

As prisões existentes revelavam-se insuficientes e inadequadas para a crescente população carcerária. Em 1905, medidas foram tomadas, foi aprovada a Lei nº 267-A ,de 24 de novembro, autorizando a construção de uma nova Penitenciária.

Distante do centro urbano da cidade e com baixos valores imobiliários, o bairro do Carandiru, na região norte da cidade, foi escolhido para abrigar o novo  estabelecimento prisional.

Francisco de Paula Ramos de Azevedo foi o engenheiro-arquiteto responsável pela obra, que tinha como modelo a arquitetura prisional francesa.

A inovação não fica apenas por conta da arquitetura, a política carcerária também era nova.

Construído para ser um estabelecimento prisional modelo, a Penitenciária do Estado simbolizava a vanguarda no tratamento carcerário. Como explica a matéria do Estado, a nova prisão passava a ter um “caracter de casa correccional e regeneratoria, com officinas próprias, de forma que o encarcerado possa ser acompanhado e educado até a sua rehabilitação moral.”

A crença na reabilitação dos infratores por meio do trabalho foi um marco, representou uma nova visão de jurisprudência.

A nova Penitenciária não só suprimia o déficit de estabelecimentos prisionais de São Paulo, como também atendia à nova lógica da Justiça no país “a punição conjuntamente a correcção e regeneração do homem criminoso, houve que construir uma nova morada; a nova lei reclamou um novo templo.”

Nove anos depois, em 1920, a penitenciária foi inaugurada.

O Estado de S.Paulo, 21/04/1920

No edifício central, uma inscrição marcava o ideário da instituição “aqui, o trabalho, a disciplina e a bondade resgatam a falta commettida e reconduzem o homem a comunhão social”.

O Complexo  Penitenciário foi ampliado. A Casa de Detenção, inaugurada  em 11 de setembro de 1956,   foi considerada uma das prisões mais seguras do mundo.

Quase meio século após sua inauguração, a penitenciária modelo era apenas uma sombra da instituição que foi.

Uma reportagem do jornal Estado mostrou como “o excesso de população carcerária, falta de matéria-prima para o funcionamento das oficinas de trabalho, maquinário deficiente e desgastado pelo uso”, impediam o funcionamento adequado da Casa de Detenção.

O Estado de S.Paulo,30/04/1967

Falta de investimentos na sua estrutura prisional agravaram os problemas no Complexo Carandiru. O aumento do índice de criminalidade e a falta de estabelecimentos prisionais, fizeram crescer o número de detentos no Carandiru, nos anos 70 e 80. A imagem de instituição modelo ficava no passado.

Superlotação, fugas em massa, violentas rebeliões, tratamento desumano de presos, agentes penitenciários corruptos e a crescente infiltração do crime organizado no sistema prisional constituíam a triste realidade do presídio.

Em outubro de 1992, um episódio sinistro marcou para sempre a história da maior penitenciária da América Latina. O massacre do Carandiru, como ficou conhecido o assassinato dos 111 presos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção.

O número real de mortos só foi revelado um dia depois, pouco antes do fechamento das urnas, na eleição para Prefeitura.

O Estado de S.Paulo,04/10/1992

Uma briga entre presos desencadeou a rebelião no pavilhão 9, para conter a revolta a Tropa de Choque da Polícia Militar, sob o comando do coronel Ubiratã Guimarães, invadiu o prédio.  Em menos de 30 minutos, aconteceu a chacina. Detentos foram metralhados pelos policiais, mesmo depois de se entregarem, outros tiveram órgãos arrancados pelos cães.

O Estado de S.Paulo,05/10/1992

Sem qualquer condição de cumprir sua função social, construído para abrigar 3,5 mil presos chegou a abrigar mais de 9 mil presos. O Carandiru era imagem vergonhosa da grave crise do sistema prisional em São Paulo. Sua atividade era inaceitável, sua desativação imperativa.

Após um longo processo de desativação, foi implodido, em 2002.

Hoje, onde ficavam os pavilhões da Casa de Detenção do Carandiru foi erguido o  Parque da Juventude. Onde havia uma prisão hoje há uma biblioteca.

No quadrilátero do Carandiru ainda  funciona a Penitenciária Feminina Sant’Ana.

 

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

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