Cem anos do Teatro Municipal em três atos

Cem anos do Teatro Municipal em três atos

Luiz Rangel

12 Setembro 2011 | 08h00

Pôster da estreia - 1911

Não que Hamlet não fosse um tema apropriado. O barítono italiano Titta Ruffo certamente tinha voz à altura da ocasião. Mas para a grande inauguração do Teatro Municipal o público manifestava sua predileção pelo Guarani, na versão do compositor, também italiano, Pietro Mascagni. Mesmo não sendo favorita a ópera adaptada do texto de Shakespeare abriu  a temporada e, seguida de O Barbeiro de Sevilha, garantiu semanas de casa lotada. Nem mesmo os salgados 250 mil réis cobrados pelas melhores poltronas inibiu os bolsos paulistanos recheados de dinheiro proveniente do café.

Foto: Arquivo/AE - 1911

São Paulo começava a despontar como uma capital cultural. Até 1900, no lugar hoje ocupado pelo prédio da Light,  uma única casa de espetáculos, o Teatro São José, “que não passava de um singelo e pesado casarão” reinava sozinha na mesma Praça Mendes, que onze anos e 4.500 contos de réis depois, receberia o imponente Teatro Municipal, assinado por Francisco Ramos de Azevedo.

A construção deveria, conforme edital  de concorrência pública “para construção de um theatro municipal” divulgado no Estadão de 22 de fevereiro de 1898, ser construído “com todas as exigências de luxo, elegância, acústica e segurança”, “café, charutaria e restaurante de primeira ordem” também deveriam constar no projeto. O mesmo edital previa isenção de impostos sobre os espetáculos apresentados num prazo de 50 anos, entre outros benefícios concedidos aos administradores do futuro empreendimento.

 


 O Estado de S.Paulo, 22/02/1898

 

Inspirado em grandes teatros europeus e recebendo espetáculos de qualidade elevada, foi um marco divisor entre antigos hábitos provincianos e as novas expectativas culturais que irradiavam das grandes metrópoles. Aos poucos, uma audiência ávida por novas produções habituava-se a uma cultura musical mais refinada e começava a ficar mais exigente.  Desfrutando de uma economia favorável, a elite cafeeira aproveitou o momento para conhecer as famosas óperas do Velho Continente. E logo vieram as inevitáveis comparações. Sua beleza arquitetônica era inegável, mas a iluminação, as acomodações e a acústica ainda deixavam a desejar. Como se não bastassem as críticas do público e da imprensa, os artistas que passavam pelo palco também declaravam sua insatisfação com a falta de estrutura técnica adequada ao porte dos espetáculos ali encenados, enquanto os músicos queixavam-se do espaço diminuto designado à orquestra.

Terça-feira, 12 de setembro de 1911

    

Reformas se faziam necessárias, mas a aproximação das comemorações do IV Centenário da cidade desviavam a atenção do governo para novos empreendimentos, como o conjunto arquitetônico do Ibirapuera, que prometia mais garantias de boa visibilidade frente ao eleitorado. Enquanto a cidade comemorava seus 400 anos, o velho teatro estava de portas fechadas.

Diante de todos os empecilhos, o teatro ainda guardava dois trunfos a seu favor: seu aniversário de 50 anos viria poucos anos depois e sua importância como marco cultural, símbolo do progresso da metrópole, não podia passar despercebida; a segunda carta na manga ficou por conta de um prefeito oportunista. Conforme relatou o Estadão em 26 de janeiro de 1961 as comemorações do cinquentenário  tiveram um caráter “essencialmente político-publicitário”. O discurso demagógico proferido pelas autoridades presentes “só serviu de pretexto para propaganda pessoal do prefeito”, o tom da solenidade contrastava com a realidade decadente de um espaço que, originalmente criado para abrigar grandes óperas e concertos, mantinha-se com atrações vulgares, peças de nível inferior, festas de formatura, desfiles de moda e outras atividades incompatíveis com o seu real propósito.  A mesma matéria ainda ressalta em foto as péssimas condições de um piano Steinway “praticamente imprestável, a começar pelos pedais”.

Agora, reinaugurado no último dia 12 de junho após longa e meticulosa reforma, um terceiro ato se inicia com a celebração de seus cem anos de existência, trazendo a perspectiva de uma nova fase da história cultural de São Paulo, em que um ícone do passado impõe-se diante da modernidade que esteve perto de esquecê-lo.

Texto e pesquisa: Luiz Rangel

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