Há 100 anos, milagre de São Genaro não contentava a todos

Há 100 anos, milagre de São Genaro não contentava a todos

Lizbeth Batista

20 Setembro 2011 | 09h03

Quarta-feira, 20 de setembro de 1911

Uma nota publicada há um século no Estadão relatava reações antagônicas de fiéis italianos ao milagre anual de São Genaro, ou São Januário, como grafava o jornal na época. Citando telegramas recebidos de Nápoles, a notinha descrevia que a ebulição do sangue do santo acontecera com êxito às 10h20 da manhã do dia anterior, na catedral da cidade italiana,  “entre salvas de morteiros e manifestações de alegria dos fiéis presentes.”

No período da tarde, no entanto, o milagre aconteceu “imperfeitamente”, dizia a mesma nota, agora citando os jornais noturnos da cidade italiana, deixando descontente parte da população.

A cerimônia com o sangue do santo  é realizada anualmente na catedral napolitana. Os fiéis creem que a transmutação da substância sólida em líquida indica a benção e proteção de San Gennaro, como ele é chamado na Itália. Se a transformação acontece, a festa prossegue com os fiéis  em júbilo.

Mas quando o sangue não se liquefaz – o que aconteceu poucas vezes em 600 anos,  isso é entendido como um mau sinal, um prenúncio de desgraças. Alguns relembram o ano de 1980, quando o sangue não sofreu qualquer alteração e um terrível terremoto atingiu a Itália deixando 3 mil mortos.

Perseguido e morto no ano 305, São Genaro é o santo mártir patrono da cidade italiana. Bispo de Benevento , ficou conhecido por sua benevolência e caridade, ajudou os cristãos perseguidos pelo Imperador Diocleciano. Ao recusar-se a adorar deuses pagãos, foi preso e condenado ao martírio. Levado à fornalha e depois jogado às feras, assim conta a sua hagiografia, não foi ferido. Foi então, sentenciado à decapitação.

Conta-se que uma mulher conseguiu guardas em ampolas o sangue do corpo do mártir. As ampolas, juntamente com os restos mortais, estão na Catedral de Nápoles.

Durante a missa anual do dia 19 de setembro  os relicários – os invólucros contendo o líquido tido como o sangue do santo- são exibidos aos fiéis, que entoam ritos e rezas pedindo que o milagre aconteça.


Em 1997, a transformação aconteceu

Quando o milagre não acontece a festa se transforma em murmúrios e choradeira.  Os fiéis seguem em reza para que o santo expie as culpas coletivas, perdoe seus pecados e volte a proteger seus devotos.

O milagre não é reconhecido pela igreja, mas  mesmo assim a data é mantida no calendário festivo católico, tamanho é o culto e a devoção ao santo e a dimensão dos festejos populares na Itália e fora dela.

Neste ano, Nápoles e os devotos de San Gennaro não tem nada a temer.  Podem expressar seu contentamento em louvor ao santo.  Ontem, por volta das 9 horas da manhã, o relicário exibia  a substância em seu estado líquido.

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

 

Tratamento de imagens: José Brito

 

Siga o Arquivo Estadão: Twitter@arquivo_estadao e Facebook/arquivoestadao