Há 30 anos, bombas no Riocentro afetavam o processo de abertura

Há 30 anos, bombas no Riocentro afetavam o processo de abertura

Lizbeth Batista

30 Abril 2011 | 12h14

Há 30 anos

JT 02/05/1981

Durante o Show do Dia do Trabalho, na noite de 30 de abril  de 1981, duas bombas explodiram no Riocentro. E o que deveria ser apenas um dia de festa transformou-se num dos mais misteriosos episódios da nossa história recente, marcando indelevelmente os anos finais do Regime Militar, e o processo de abertura política do país.

O show foi promovido pelo Centro Brasil Democrático, entidade ligada ao PCB.  Contou com a apresentação de vários artistas, entre eles,  Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento Ivan Lins e Gonzaguinha. E Reuniu cerca de 20 mil pessoas, na sua maioria estudantes.

Por volta das 21 horas, uma bomba explodiu no estacionamento, dentro do carro onde estavam os dois militares. A explosão matou o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que estava no banco de passageiro e carregava o artefato no colo, e feriu gravemente o motorista, o capitão Wilson Dias Machado.

Ambos os militares pertenciam ao DOI- CODI.

A segunda bomba detonou na caixa de força da estação elétrica, sem conseguir cortar a luz, a explosão não chamou muita atenção e o show não foi interrompido.

Caso as bombas cortassem a força no Riocentro, o pânico dos milhares de espectadores, com a escuridão e o barulho das explosões, poderia ter provocado uma tragédia.

Se bem sucedido, o ataque teria sido o maior atentado terrorista urbano da história do Brasil.

JT 02/05/1981

Em 07 de maio de 1981, o presidente Figueiredo foi a público, declarar a posição do governo quanto ao atentado e acalmar os temores de que o ato terrorista pudesse prejudicar o processo de abertura política.

Em sua declaração o presidente reafirmou o compromisso político de redemocratizar o país. Dirigindo-se a grupos radicais dentro das Forças Armada, declarou que “apesar de soldado” não aceitava a guerra em tempos de paz, disse que compreendi apenas o combate de “ideias”, e que condenava qualquer ato de terror, fosse de direita ou de esquerda.

O Estado de S.Paulo 07/05/1981

Um mês após as explosões do Riocentro, o Inquérito Policial Militar (IPM) concluía que os militares estavam no local em missão de informações, e que foram “vítimas” de uma armadilha. O inquérito não negava que o crime era de competência militar, mas dizia que não era possível identificar sua autoria, uma vez que havia “vários grupos radicais – de esquerda e direita – interessados em provocar o descrédito dos órgãos de informações.

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O Estado de S.Paulo junho de 1981

Em 3 de outubro de 1981, o Supremo Tribunal Militar, por maioria de votos – 9 a 4- decidiu arquivar o processo.

Fortes indícios apontavam o envolvimento de oficiais das Forças Armadas no atentado. O arquivamento do processo gerou grande indignação nacional.

O Estado de S.Paulo 03/10/1981

Alguns anos após a redemocratização do país, em militares e políticos começaram a revelar novos fatos sobre o caso. O ex-presidente João Baptista Figueiredo,  declarou numa entrevista, em 1981 que  o resultado do processo Riocentro não havia convencido ninguém, porque “não chegou a nada”. Na mesma entrevista, Figueiredo diz que houve participação de militares no planejamento do atentado.

Em 1999 mais uma revelação o general de Exército Newton Cruz, antigo chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), disse à Comissão de Direitos Humanos da Câmera, que foi informado, momentos antes das explosões, que agentes do governo realizariam “um protesto” no estacionamento do Riocentro. Disse também que os agentes tinham planejado colocar apenas “uma bombinha vagabunda”, sem a intenção de “matar”.

Dezoito anos depois, o processo foi reaberto.

Novas provas levaram a instauração de um novo inquérito policial – militar (IPM) . A nova investigação trouxe à tona fatos que o inquérito original ocultou. Foram indiciados e apontados como responsáveis: o coronel Wilson Machado, o general de reserva Newton Cruz, o sargento Guilherme do Rosário, morto na explosão, e o coronel Freddie Perdigão, antigo chefe do SNI do Rio, morto em 1997. O caso foi levado ao Supremo Tribunal Militar (STM).

O Estado de S.Paulo 18/05/1981

Em maio de 2000 o Supremo Tribunal Militar arquivou o caso. O ministro do Supremo Tribunal Militar, Carlos Alberto Marques entendeu que o crime foi enquadrado em 1988 na Lei de Anistia, impedindo sua ação penal.

O Estado de S.Paulo 05/05/1981

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

Tratamento de Imagens: José Brito

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