Mário de Andrade e a Semana de 22: como tive coragem?

Mário de Andrade e a Semana de 22: como tive coragem?

Edmundo Leite

17 Fevereiro 2012 | 14h18

 Mas como tive coragem?

“Mas como tive coragem para dizer versos ante uma assuada tão singular, que eu não escutava do palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas?… Como pude fazer uma hórrida conferência na escadaria do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?…”

O depoimento acima faz parte balanço feito por Mário de Andrade vinte anos depois da Semana de Arte Moderna.

Dividido em quatros partes, começou a ser publicado em fevereiro de 1942 no Estadão.

Em comemoração aos 80 anos da Semana, foi republicado e ganhou ilustrações de Baptistão.

Mário de Andrade expôs suas dúvidas, contradiçoes, relatou os bastidores, as causas e efeitos da Semana de Arte Moderna de 1922. Segundo ele a Semana significou “atualização da inteligência artística brasileira”. Além disso, Mário desmistifica o Movimento que mesmo depois de 90 anos ainda ressoa nas estética artística nacional, quando não, serve de base para produzí-la. (Clique nas imagens para acessar os textos)

O Estado de S.Paulo – 10/2/2002

“O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança, absolutamente firme que tinha na estética renovadora, eu não teria forças para arrostar aquela tempestade de achincalhes. E se agüentei o tranco foi porque estava delirando. (…) Por mim teria cedido”.

O Estado de S.Paulo – 17/2/2002

“E vivemos uns seis anos na maior orgia intelectual que a história artística do País registra. Está claro que, na intriga burguesa, a nossa “orgia” não era apenas espiritual… O que não disseram, o que não se contou das nossas festas… Champanha com éter, vícios inventadíssimos, as almofadas viravam “coxins”, toda uma semântica do maldizer…”

O Estado de S.Paulo – 24/2/2002

“O espírito modernista reconheceu que se vivíamos já de nossa realidade brasileira, carecia reverificar nosso instrumento de trabalho para que nos expressássemos com identidade. Inventou-se, (…) a fabulosíssima “língua brasileira”.

O Estado de S.Paulo – 3/3/2002

“O artigo “contra” de Monteiro Lobato, embora fosse apenas uma baladilha zangadinha, sacudiu uma população, modificou uma vida. Junto disso, o movimento renovador era nitidamente aristocrático. Pelo seu caráter de jogo arriscado, pelo seu espírito aventureiro, pelo seu internacionalismo modernista, pelo seu nacionalismo embrabecido, pela gratuidade antipopular, era uma aristocracia do espírito. (…) Paulo Prado, ao mesmo tempo que um dos expoentes da aristocracia intelectual paulista, era uma das figuras principais da nossa aristocracia tradicional”.

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Ilustrações: Baptistão
Pesquisa e Texto:
Carlos Eduardo Entini e Rose Saconi
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