Escândalos do correio

Escândalos do correio

Lizbeth Batista

01 de julho de 2011 | 09h06

Esta semana dois casos de crimes cometidos nos Correios de Campinas (SP) e de Teutônia (RS) vieram a público e estão sendo investigados. Há cem anos o órgão público também enfrentava denúncias de violação de correspondência, tentativa de destruição de correspondência, roubo e peculato.

A edição de 01 de julho de 1911 trazia novas  irregularidades dos Correios de São Paulo. O mais recente escândalo envolvendo o órgão trazia à tona inúmeras revelações sobre o mau funcionamento do serviço postal.

Entre os casos, publicados na edição do dia 01, estava o caso de uma correspondência que levou 5 anos para chegar dos Estados Unidos ao Brasil, um exemplo claro do descaso e lentidão do serviço.

Sabbado, 01 de julho de 1911

Em 25 de junho o Estado denunciava mais um crime cometido por funcionários do Correio. Correspondências de empresas e de pessoas físicas foram violadas e atiradas ao quintal da Rua Vieira de Carvalho.

Esta poderia ser mais uma entre as freqüentes queixas dos usuários que procuravam a imprensa para reclamar sobre roubo, desaparecimento de cartas, demora inexplicável nas entregas ou violação de correspondências. Casos que, apesar da instauração de inquéritos, não resultavam na punição dos responsáveis, tão pouco na melhoria dos serviços.

As chances de uma investigação séria ser realizada caia em descrédito: “Em São Paulo, porém, os inquéritos do correio têm sido o que toda a gente sabe: iniciam-se, não proseguem e passado algum tempo os que nelles figuravam são reintegrados e até promovidos, porque o que ficou provado é que os criminosos haviam sido calumniados pela imprensa. E’ espantoso!”

Este caso foi diferente. O jornal não só denunciou o incidente, como também publicou provas.  As 65 cartas encontradas no quintal de uma casa foram entregues ao jornal, comprovavam a má administração e a conduta inaceitável de funcionários do órgão.  Os leitores puderam ver a lista das correspondências roubadas. Algumas delas estamparam a página central do jornal.

A revolta diante do caso fez chegar, até a redação do Estado, várias outras denúncias. Casos como uma carta com destinatário em Minas Gerais que foi parar no Japão e só retornou ao país devido à competente atuação de um funcionário do correio japonês, o de um diplomata que apontava como grande entrave para o estreitamento de laços comerciais a inviabilidade de comunicação por meio postal, um posto dos correios onde os funcionários dormem e se apresentam embriagados durante o expediente.

Publicações indignadas em diversos jornais, do Rio de Janeiro e de São Paulo , cobravam moralização, fiscalização e uma administração diligente do órgão.

Explicações e ações foram regularmente cobradas ao sr. J.J. Seabra,  Ministro da Viação e Obras Públicas, responsável pelos correios.

Cansados de lidar com empregados inaptos e desonestos que recheavam o quadro de funcionários do órgão, colocados em cargos de confiança graças à politicagem, opinião pública e imprensa uniram-se para denunciar a má conduta nas diversas instâncias do órgão, dos superiores que trocavam apoio político por cargos nos postos do correio, aos subalternos que prevaricavam impunemente.

Explicações e ações foram regularmente cobradas ao sr. J.J. Seabra,  Ministro da Viação e Obras Públicas, responsável pelos correios. A pressão por uma postura mais séria na operação da maquina pública foi sentida no governo Hérmes.

Pesquisa e Texto: Lizbeth Batista
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