Quando a França perdeu sua guerra ao terror

Quando a França perdeu sua guerra ao terror

Lizbeth Batista

18 Março 2012 | 09h30

18  de março de 1962


Acordo de paz de Evian
e o cessar-fogo na Argélia

Existem guerras que transcendem a disputa territorial entre duas nações, ou entre povos. Alguns conflitos representam o choque entre civilizações.

A Revolução da Argélia, uma guerra de descolonização que transformou a Argélia num país independente da República da França, em 1962, é um destes conflitos.

Os quase oito anos de guerra que expuseram o pior das duas civilizações. A França e sua arrogante irredutibilidade em rever a condição política da Argélia, ignorando o direito à autodeterminação do povo argelino viu sua superioridade militar rarefazer-se diante da guerrilha,  melhor adaptada às regiões selvagens e montanhosas do Norte da África e a zonas urbanas de Argel, e beneficiada pela tácita cumplicidade da população árabe. Contrariando seus cálculos militares à medida que os franceses venciam uma batalha, a insurreição alastrava-se por todo o território argelino.

Atentado em Argel, 20/04/1959.  Foto: Arquivo AP

O novato, e talentoso correspondente do Estado percebeu a trágica matemática desta guerra. Gilles Lapouge, escrevendo de Paris expressou o que atormentava os franceses “não será inquietante verificar que o vigor do impeto dos rebeldes não deixa de crescer, à medida que aumentam suas baixas? É como se tivessem uma reserva de homens inesgotáveis e que a violência da replica francesa, abrindo uma brecha maior entre muçulmanos e europeus, tivesse como resultado recrutar incessantemente novos rebeldes.”

Gilles, até hoje correspondente do Estado na França, acompanhou e narrou todos os capítulos sombrios e perturbadores da guerra: o terrorismo da FLN, Frente de Libertação Nacional, os métodos de tortura empregados pelo exército francês sob a tutela do General Massu, o momento quando o terror que vitimizava civis em Argel e Orã cruzou o Mediterrâneo e chegou aos cafés de Paris, o surgimento da organização paramilitar clandestina dos partidários da “Argélia francesa” a OAS, Organisation Armée Secrète, que justificava suas ações terroristas como contra- terrorismo.

Militantes da OAS, Organisation Armée Secrète, 28/02/1960. Foto: Arquivo AP

O mesmo jornalista, que descreveu a escalada do ódio racial que permeou o conflito, foi o enviado especial do jornal para os festejos da independência em Argel , em julho de 1962. Testemunhou a reconciliação entre árabes e europeus, celebrada nas ruas com efusivos abraços, e concluiu:

“Todas as guerras são absurdas, mas o epílogo patético de uma das maiores tragédias do pós-guerra demonstrou-o com uma rara clareza.”

O Estado de S.Paulo – 01/7/1962

Pesquisa e texto: Lizbeth Batista
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