Salmo das dívidas

Salmo das dívidas

Edmundo Leite

03 Novembro 2011 | 09h27

“Oi Tatiana: gostei muito do artigo que voce escreveu sobre o cliente do banco que se comunicou por poesia.
Há muitos anos atrás quando o ” O Estado ” tinha um “Suplemento Literario”, foi publicado na data de 13 /7/91 uma poesia bem modernista chamada “Salmo de dívidas” por Ilka Brunhilde Laurito.
Tenho certeza de que voce encontrará nos arquivos do jornal e depois de ler, e apreciar como eu, vai envia-la para as pessoas que voce entrevistou, pois ainda é muito atual e dentro do espirito do artigo. Caso não encontre, avise que tentarei mandar uma cópia.
Fico muito contente que nesse ambiente árido dos bancos tenha brotado a genial poesia do Mauro Jr e a resposta do banco ao cliente:

as pessoas só precisam de um empurrãozinho para começar a apreciar a poesia.
Obrigada pelo seu artigo que foi surpreendentemente agradavel.
Não pare nisso : escreva mais.
XXXX @ gmail .com leitora assidua do jornal ” O Estado de São Paulo”.

Aqui vai a poesia de autoria de Ilka Brunhilde Laurito mencionada pela leitora, publicada há 20 anos no suplemento “Cultura” acompanhada de uma ilustração de Rita Rosenmayer:

Salmo das dívidas

Ilka Brunhilde Laurito

Para Cecília e Drumond, poetas meus que jazem em cédulas

Não há lírios. Não há campos.
Que posso olhar, Senhor,
nesta aridez urbana,
senão a lívida floração dos bancos?
Eles vicejam em cada canto
em que o clamor da moeda,
mais que a voz do poeta,
se alevanta.

Senhor, tenho valores:
não se vendem(mas também não compram).
O que farei com estes papéis sem conta
onde os meus versos
— tão inoperantes! —
gratuitamente cantam?…

Senhor, estou em estado de cheque.
Eu sei que deste a César.
E o que era meu,
a quem será que deste?…
Longa é a distância
entre o meu saldo médio
e o horizonte de meus débitos.
César, porque é César,
vai em contínua romaria
às argentárias catedrais suíças.
Eu pouco avanço
nestas provincianas e módicas poupanças,
enquanto desfio o rosário
das peregrinações cotidianas.

Partir?…
Bem que eu queria,
não fora tão caro hospedar exílios.
E para o bem geral (e o mal de mim)
eu digo ao povo que sou povo.
E fico.

Não há mais lírios, Senhor,
principalmente brancos.
Mas há bancos, alvos bancos:
E os teus campos?… Serão estes perversos campos
onde a flor inodora do dinheiro
nunca pode ser colhida
pelas mãos do jardineiro?…
onde o ouro encacheado em espigas
foge ao lavrador que semeou o trigo?
onde o pão-ágio de cada dia
quem amassa é o diabo
que estufa a cotação inflávelda farinha?…

Senhor,
teu pai nosso de hoje
já não perdoa os devedores.
Quem me perdoa, então,
se a oração é a mesma,
mas a letra é outra?…
Ah! um novo sermão da montanha
— no topo de um ararat arquitetônico —
a esta legião de mal-aventurados
que escalam o cume do cansaço
sobre o chão escarpadodo trabalho! AH!…

(Férias perenes
na estação da morte?…
Céus de glória?…)
Senhor!
Nada de salários póstumos
nem de postergados prêmios.
Senhor,
atende-me:
venha a nós
o nosso reino.

(Originalmente publicado no suplemento Cultura de O Estado de S.Paulo em 13/7/1991)

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