Moradores pedem revogação de mudanças na Avenida Celso Garcia
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Moradores pedem revogação de mudanças na Avenida Celso Garcia

CET implementou mão dupla no sentido centro; munícipes reclamam de aumento do trânsito, prejuízos aos pedestres e organizam manifestação

Ludimila Honorato

30 Agosto 2018 | 16h15

A Avenida Celso Garcia, principal via que liga a zona leste de São Paulo ao centro da cidade, passou por mudanças viárias há pouco mais de um mês. As medidas, porém, não agradaram aos moradores da região, que organizam uma manifestação para esta sexta-feira, 31, pela revogação das alterações e instauração de uma comissão permanente de revitalização da avenida.

Antes das mudanças, a via contava com três faixas no sentido bairro e uma, exclusiva para transporte público, no sentido centro. Desde o dia 21 de julho, a avenida tem duas faixas em ambos os sentidos, ou seja, quem quiser ir de carro ou moto para o centro, agora pode.

Banner alerta sobre mudança da circulação na via. Foto: Ludimila Honorato/Estadão

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), o objetivo é aumentar a segurança dos usuários da via, com foco na proteção dos pedestres, e eliminar o contrafluxo de ônibus, que seria fundamental para reduzir acidentes e melhorar a percepção de pedestres na região. Para a CET, o contrafluxo daria o entendimento de que a avenida tem apenas um sentido.

“Não foi uma boa para o pedestre”, diz Elcio da Fonseca, de 64 anos, morador do Tatuapé. Ao andar pela avenida, ele afirma que a maioria dos motoristas não respeita a sinalização e os semáforos não ajudam. Para ele, no entanto, o trajeto de carro pela região se tornou mais rápido.

A socióloga e jornalista Dayana Melo, moradora do Belém e uma das idealizadoras da manifestação, considera que o tempo de travessia para o pedestre “reduziu muito e tem semáforo que demora muito para abrir”. Moradores organizaram o ato pelas redes sociais com perfil, página e grupo intitulados Reage Celso Garcia, além de aplicativo de mensagens.

Após mudanças viárias, carros e motos podem trafegar até o centro de SP. Foto: Ludimila Honorato/Estadão

Dayana considera que o acréscimo de uma faixa no sentido centro ao lado da exclusiva para ônibus complicou a vida de quem depende do transporte público. “(A alteração) trouxe mudanças drásticas. Tem atraso de ônibus, as pessoas relatam que demoram cerca de uma hora a mais na viagem e muitos estão migrando para o metrô, com custo a mais, ou acordam mais cedo”, conta.

Dayana relata também que as faixas ficaram mais estreitas, o que obriga os ônibus a circularem “espremidos”. A via, esburacada em alguns trechos, segundo a moradora, também não ajuda. “Quando chove, não dá para andar na calçada”, diz, sobre as poças de água que se formam.

Faixas estreitas e via esburacada prejudica circulação de ônibus e de pedestres pela calçada. Foto: Dayana Melo

A CET informou que houve “aumento do tempo dos cruzamentos semafóricos e ampliação dos ciclos semafóricos, que é quantas vezes o semáforo fecha para os carros e abre para o pedestre atravessar”. Além disso, nove novos cruzamentos ganharam semáforos, dando “novas opções de travessia” para os usuários da via. Segundo a companhia, houve aumento também no número de botões que os pedestres acionam para atravessar a via – de 37 para 119 – e de travessias com foco específico para quem está a pé – de 50 para 90.

Em comunicado no site, a companhia informou que seis conversões à esquerda da via foram eliminadas e novas opções de retorno por ruas internas do bairro, criadas. No entanto, moradores afirmam que as medidas deixaram ruas isoladas e fizeram aumentar o tempo dos trajetos. Noelia Miranda, de 41 anos, mora no Tatuapé e conta que, antes, demorava dez minutos para buscar a filha na escola no final da tarde, a cerca de duas quadras de casa. Agora, o percurso dura de 15 a 20 minutos.

“Está muito bagunçado. De tarde, por volta das 15 horas, já começa o trânsito e a Salim fica muito congestionada. Vai das 15h30 às 19h30 até desafogar”, diz Noelia. Ela conta que, às vezes, os semáforos na Celso Garcia não funcionam e já presenciou pessoas quase sendo atropeladas. Ela se preocupa, principalmente, com os idosos da região.

Em 2017, o número de óbitos em acidentes de trânsito na capital paulista foi maior entre pedestres de 40 a 69 anos, segundo relatório anual da CET. A Avenida Celso Garcia é a 48ª com mais acidentes na cidade, com 22 atropelamentos (sem mortes), dos quais 14 foram por ônibus. Destes, dez foram no contrafluxo, informou a companhia. As duas mortes registradas na via no ano passado decorreram de acidentes com vítimas em veículos, num total de 19.

A companhia de tráfego afirmou, ainda, que a implantação de mão dupla em trecho de 6,7 quilômetros está sendo acompanhada diariamente por equipes de campo da CET e por técnicos da SPTrans.

Fiscal da CET no cruzamento da Celso Garcia com a Rua Tuiuti. Foto: Ludimila Honorato/Estadão

Mais diálogo. Os moradores reclamam que não houve uma consulta pública antes das mudanças. “A gente soube quando recebemos em casa panfletos do vereador Ricardo Teixeira se colocando como autor do projeto. Encontramos um ofício de junho 2017, então fica difícil acreditar que foi feito um estudo para implementar o projeto. Falta transparência e diálogo”, critica Dayana.

A Blitz não encontrou o documento original citado pela moradora, mas a assessoria de imprensa do parlamentar confirmou que, no ano passado, ele “acatou pedido dos moradores, pessoas idosas, que andam pela região e mandou esse pedido para a CET, que já tinha esse projeto”. Mudança semelhante ocorreu na Avenida Brigadeiro Luís Antônio em 2016.

A CET informou que “a decisão (de alterações) foi baseada pela análise dos registros técnicos da CET. Rever um sistema de circulação implantado na década de 1970, quando as condições de tráfego da cidade eram diferentes, faz parte de uma política de segurança viária”, disse a nota.

A companhia informou que a administração municipal mantém um diálogo aberto permanentemente com a população e que, nessa quarta-feira, 29, o secretário municipal de Mobilidade e Transportes, João Octaviano Machado Neto, e o presidente da CET, Milton Persoli, receberam representantes de moradores e membros da Coordenadoria Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg) para discutir melhorias no corredor.S egundo o órgão, novas reuniões ficaram acertadas para manter o diálogo sobre o tema.

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