A vida do procurador que virou sambista

Estadão

04 Fevereiro 2013 | 14h28

Restando apenas uma semana para o Carnaval, quase ninguém sabe cantar os sambas de enredo dos desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo. No entanto, mesmo quem não suporta a folia provavelmente já ouviu e até sabe cantar trechos de “É hoje”, samba entoado pela União da Ilha no distante ano de 1982: “A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela…”.

Regravado por Caetano Veloso e Fernanda Abreu, esse é o segundo samba-enredo mais cantado no Brasil nos cinco últimos carnavais, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que fiscaliza direitos autorais. Só perde para “Peguei um Ita no Norte” (“Explode coração na maior felicidade”).

Quase todo mundo conhece “É Hoje”, mas pouca gente sabe que o autor, de tradicional família alagoana que se transferiu para o Rio, abandonou uma respeitada carreira jurídica para se tornar um dos mais importantes compositores de sambas-enredo da história do carnaval. Encantado com o cotidiano das escolas de samba, brigou com a mãe e terminou um casamento.

Vítima de cirrose, quatro anos após sua morte inspirou outro samba-enredo clássico: “Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, que eu tô feliz…”. Assim foi Gustavo Carvalho Baeta Neves, ou apenas Didi, homenageado pela União da Ilha em 1991 com o enredo “De bar em bar, Didi, um poeta”.

A família de Didi era muito rica, mas sofreu uma derrocada com a morte prematura do pai, aos 35 anos, em 1937, conta o escritor Alberto Mussa, sobrinho de Didi e coautor de “Samba de enredo – História e Arte”. O futuro sambista tinha apenas dois anos e se mudou com a família do Méier, na zona norte do Rio, onde tinha até motorista particular, para a ilha do Governador, na mesma região, onde chegou a morar em um porão.

Quando venceu pela primeira vez uma disputa de samba-enredo, na União da Ilha, em 1955, o compositor de apenas 19 anos preferiu assinar com o pseudônimo de Didi. Era uma forma de evitar broncas em casa, pois a família via ressabiada seu envolvimento com o samba.

Durante a década de 1960 a carreira jurídica deslanchou e Didi tornou-se procurador da República, mas não se afastou das escolas de samba. Em 1967 e 1968, ele venceu as disputas de samba-enredo no Salgueiro. Desta vez, temendo melindrar integrantes da União da Ilha, preferiu não assinar a autoria, atribuída apenas a seu parceiro Aurinho da Ilha.

A intensa rotina profissional e a pressão familiar (sua mulher também criticava o envolvimento dele com o samba) fizeram Didi se afastar do carnaval em 1971. “Mas em 1977 seu ex-parceiro Aurinho compôs ‘Domingo’, samba de muito sucesso, e Didi não aguentou: decidiu voltar ao samba”, diz Mussa. “Aí os atritos com a mãe aumentaram e eles se afastaram.” Ele voltou à ala de compositores da União da Ilha, mas, segundo as regras do grupo, só poderia concorrer um ano após o retorno. Como não fazia questão de figurar como autor, compôs “O Amanhã” (“A cigana leu o meu destino… eu sonhei…), que foi assinada apenas pelo parceiro João Sérgio. “Quem acompanhou aquela disputa de samba sabe que foi Didi quem compôs”, diz Mussa.

No carnaval de 1983 Didi inscreveu sambas na Ilha e no Salgueiro, escolas concorrentes. Embora não figurasse como autor no Salgueiro, a notícia se espalhou e Didi foi desclassificado pela Ilha, mas venceu no Salgueiro. Nos dois anos seguintes ganhou novamente na Ilha. Seu último samba a embalar a Sapucaí foi entoado pelo Salgueiro em 1987. Vítima de derrame e portador de cirrose, não pode ir à escola na noite da escolha do samba. Morreu em abril daquele ano, sem deixar filhos.

Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo