‘Após o carnaval, vamos pensar em licitar o evento’, diz prefeito do Rio

Estadão

08 Fevereiro 2013 | 06h55

Depois de, segundo diz, acabar com uma “confusão dos diabos” na relação entre a Prefeitura do Rio e a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) na organização do desfile do Grupo Especial – deixando para a entidade todo o faturamento com ingressos -, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) quer retomar um projeto antigo. Encerrado o carnaval 2013, ele vai decidir se, pela quarta vez, tentará licitar a organização do evento, desde 1995 a cargo da instituição que reúne as agremiações carnavalescas. Para ele, foi “burrice” a recusa da Liga em participar do processo licitatório, já que é ela que detém o “conteúdo” da festa – as escolas de samba. Paes vê “certa hipocrisia” na relação com a Liesa, entidade cuja história é ligada à cúpula do jogo do bicho (a entidade não quis comentar). Também defende a licitação como forma de estabelecer relação contratual com a Liesa, em sua opinião candidata quase imbatível a vencer a eventual disputa.

A prefeitura mudou a relação do poder público com a Liesa, passando de um contrato para um termo de cessão de uso e cedendo à Liesa o que faltava para chegar a 100% da receita de ingressos. Por quê?

Antes, a prefeitura antecipava dinheiro para a Liesa. E depois recebia de volta. Quis acabar com a relação pecuniária Prefeitura-Liesa. Porque tinha um negócio de repassa dinheiro da Prefeitura para a Liesa, depois voltava, era uma confusão dos diabos… Falei: ‘Olha, supostamente, quanto mais recursos forem para as escolas, melhor. A Prefeitura não quer ter lucro com a festa.’ Vai ter lucro indireto, obviamente. Nosso objetivo não é ficar ganhando dinheiro em cima de ingresso de escola de samba. Ali, eu rompi com qualquer relação pecuniária com a Liesa. O negócio que a gente faz é a cessão não-onerosa da Sapucaí para eles.

Quanto é arrecadado com a venda de ingressos na Marquês de Sapucaí?

Não sei. Assim como o sujeito que aluga lá para o Rock in Rio ou para o Hollywood Rock, também não sei quanto a Liesa fatura, entendeu? A gente acompanha preço, define essas coisas, mas a renda é toda da Liesa hoje.

A Prefeitura não tem nenhum controle contábil sobre essas rendas?

Nenhum.

E não deveria ter?

Eu acho que não.

Mas o sambódromo não é um bem público?

O carnaval tem caráter público, mas ali é uma gestão terceirizada do carnaval, que eu sempre defendi, inclusive no processo eleitoral. Defendi fazer licitação, tanto que tentei fazer licitação. Acho muito melhor do que ficar pagando dinheiro para a Liesa depois devolver.

Uma consulta aos balanços da Liesa mostra que o superávit da entidade cresceu mais de 300% de 2009 para 2012. E todos os outros números melhoraram – patrimônio líquido, ativo circulante, dinheiro para as escolas…

É isso. Acho que as escolas, com esses repasses, são mais do que sustentáveis. Basta ver exemplos. União da Ilha não tem nenhum patrocínio extra, além do que todas recebem, e, enfim, está com o carnaval pronto. Então, acho que as escolas recebem um volume de recursos suficiente.

O senhor tentou duas licitações para a gestão do carnaval…

Três. Fiz duas em um ano, uma em outro.

E por que nenhuma vingou?

Não apareceu interessado, o que era uma coisa que, de certa maneira, eu esperava.

Por quê?

Porque o que é o carnaval? É um conteúdo. O conteúdo o que é? É a Portela, é a Beija-Flor, é a Mangueira… E esse conteúdo se reúne numa coisa chamada Liesa. Então, se a Times for Fun, que representa a Disney no Brasil, ganhar (a licitação), vai desfilar quem? O Pateta e o Mickey? O Pluto e o Pato Donald? Aí é capaz de ninguém ir. Nem eu vou. Podem botar o Pluto de Portela que eu não vou abraçar. A verdade é essa. Tem uma certa hipocrisia nisso. A Liesa, e aí eu não estou aqui falando se tem algum marginal lá dentro do conselho ou não tem… O Jorginho é um cara muito arrumado, esse Jorge Castanheira (presidente da Liesa)… Enfim, a Liesa é a união das escolas de samba. que são o conteúdo do carnaval. A gente vai contra o conteúdo do carnaval? Então, eles entenderam por bem não participar da licitação, o que acho um erro. Acho que era muito melhor eles terem participado, terem um contrato fruto de um processo licitatório. E burrice, na minha opinião. Porque se participassem, qual era a chance de alguém ganhar deles, se o critério técnico é o que vale? Se tivesse ali, disputando, Disney com Mickey, Pateta, Pluto e Minnie, e Liesa com Beija-Flor, Mangueira, Portela e Salgueiro, vai ganhar essa. E aí passava a ter uma relação contratual mais firme, fruto de um processo licitatório.

Estado: A ideia da licitação morreu?

Ainda não. Mas, enfim, é o que vou ter de avaliar aqui. Agora, estamos vendo este carnaval. Vou esperar passar este carnaval, e aí a gente avalia isso.

Mas há possibilidade de licitar?

Há. Acho que precisa fazer um processo desses, você transforma em uma relação mais clara. Quanto mais clara a relação, melhor. Ano passado teve eleição. Então nem podia fazer processo licitatório. Agora, estamos na fase pré-momesca, não adianta querer discussão muito aprofundada. Depois do carnaval, vamos pensar nisso.

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Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo