Blocos fazem rua virar espaço de convivência

Estadão

05 Fevereiro 2013 | 06h57

A ideia de uma São Paulo vazia e silenciosa no carnaval não fez jus à realidade do último fim de semana. Mais de dez blocos desfilaram pela cidade e levaram milhares de foliões fantasiados para a Vila Madalena, na zona oeste, e a região do Baixo Augusta, no centro.

Para muitos, as manifestações mostraram que os paulistanos querem de fato brincar o carnaval e a cidade pode ter potencial para abrigar uma festa popular e de rua. É o que pensa a especialista em carnaval e pesquisadora do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Olga von Simson. Para ela, o carnaval de rua é a maneira encontrada pelo público de voltar a ser protagonista da festa e esse movimento chega tardiamente a São Paulo.

 

JB Neto/Estadão

 

O que, na sua opinião, mudou na atitude dos paulistanos?

Nas últimas décadas, a tendência foi transformar o carnaval de rua em um espetáculo feito por um pequeno número de pessoas para uma multidão. O público, que até então ocupava essa posição passiva, cansou, reagiu e resolveu se envolver de novo. As pessoas agora querem ser protagonistas, brincar o carnaval cantando, dançando e participando.

O carnaval de rua está ganhando força em outras cidades?

Até há pouco tempo, era possível diferenciar o carnaval participação, que acontecia de Salvador para cima, e o espetáculo, de Salvador para baixo. Esse modelo de participação está descendo no mapa do Brasil e ocupando o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. O que a gente vê é um desejo de protagonismo no carnaval, de participação efetiva e de reconstruir a alegria de ser um membro efetivo da folia.

Era de se esperar que o carnaval voltasse para as ruas?

Observamos isso em São Paulo, mas é de uma maneira até tardia, considerando o que acontece no Rio de Janeiro e no Nordeste. Dentro daquele modelo anterior de carnaval espetáculo, a maioria das pessoas ia festejar em outras cidades do interior ou no litoral. Uma hipótese é que a crise econômica dificultou essas viagens e as pessoas que ficam na capital resolveram participar ativamente ocupando a rua.

Ocupar as ruas é também uma forma de participação política?

A rua está se transformando em um espaço de confraternização e de construção de novas relações sociais. As pessoas habitam apartamentos pequenos, onde a vida é difícil e claustrofóbica, e a rua é uma alternativa. Se eu sou obrigado a ficar na capital durante o carnaval, quero mais espaço para viver esse fim de semana prolongado e esse espaço é conseguido nas praças, nos parques e nas ruas.

Há alguma explicação histórica para o carnaval de rua voltar a ganhar força?

A organização dos desfiles de escolas de samba como competição na década de 1930 foi uma forma encontrada pelo poder público para exercer controle sobre a festa. Com isso, a grande preocupação do público não era mais sair e se divertir pelo prazer de se divertir. Passou a ser também competir com os outros para ganhar o carnaval, que se tornou uma espécie de obrigação e não um prazer lúdico. Eis aí mais uma razão para que as pessoas queiram sair na rua em bloco e não mais na escola de samba, competindo.

É natural que os blocos ocupem locais nobres e mais centrais da cidade?

Nem sempre a escolha do lugar corresponde à habitação daquele bairro, mas a região central sempre foi um foco. No fim do século 19, por exemplo, o carnaval acontecia no chamado triângulo central, entre as Ruas Direita, Líbero Badaró e São Bento. Eram desfiles da burguesia, nos quais participavam comerciantes ricos e estudantes de Direito e Medicina.

Quem é

Olga von Simson é doutora em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é pesquisadora do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora do livro Carnaval em Branco e Negro – Carnaval Popular Paulistano 1914-1988.

Juliana Deodoro e Nataly Costa, O Estado de S. Paulo

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