Entrevista Paulinho da Viola: ‘O carnaval mudou muito e acho que tem de ser assim’

Estadão

09 Fevereiro 2013 | 15h17

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Foto: Tasso Marcelo/ Estadão

Luciana Nunes Leal, Rio – Em 1995, o cantor e compositor Paulinho da Viola voltou a desfilar na Portela, após 17 anos de afastamento, causado pela decepção com o carnaval-espetáculo que se impunha sobre samba de quadra e enredos mais simples. No 1.º dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro, Paulinho será homenageado pela Portela no enredo que celebra os 400 anos de Madureira, reduto do samba carioca.

Paulinho virá no último carro, que faz referência ao trem que passa pelo bairro da zona norte onde nunca morou, mas passou grande parte da infância e juventude, primeiro nos coretos que animavam o carnaval de rua e depois envolvido com a escola. “A Portela sempre foi uma coisa muito forte na minha vida”, diz, resumindo a relação com a escola onde chegou em 1965.

Aos 70 anos, Paulinho diz que não tem nada de saudosista, mas se incomoda com o barulho “ensurdecedor” dos ensaios das escolas e o “segundo plano” reservado aos sambas e compositores. E vê com alegria a retomada dos blocos de rua, embora não saiba onde vão parar. .”

Qual será seu papel no desfile da Portela?

Quem está sendo homenageado é Madureira, a história do bairro. Esses enredos agora englobam muita coisa. Estou no enredo como uma figura simbólica de um narrador dessa história. Madureira é um bairro bastante conhecido no Rio, não só pelas escolas de samba, a Império Serrano e a Portela, mas por sempre ter sido um centro comercial muito forte.

Foi a Portela que o levou a Madureira?

A Portela sempre foi uma coisa muito forte na minha vida. Fui criado em Botafogo (zona sul), onde nasci, e na Vila Valqueire (zona norte), onde passei parte da infância e adolescência na casa de uma tia. A União de Jacarepaguá ficava praticamente ao lado. No carnaval, a gente brincava nos coretos de Campinho, Madureira, Cascadura e ia a ensaios da Portela, do Império.

A Portela comemora 90 anos em 2013. Resta algo da escola original?

O carnaval mudou muito e acho que tem de ser assim. As coisas mudam e não deixou de acontecer com a Portela. Me afastei muito tempo, o carnaval de escola de samba virou um enorme espetáculo. Eu e Candeia chegamos a criar, nos anos 70, um lugar onde a gente pudesse fazer o que estava difícil na escola: cantar, compor, fazer festas sem o compromisso do desfile. Era uma ideia um pouco romântica que durou algum tempo. Depois da morte do Candeia, ficou mais difícil mantê-la viva. Acho que o espetáculo ganhou e perdeu. Hoje fazem concursos de samba de quadra, mas esses sambas não são cantados nas quadras, como antigamente. Fiquei 17 anos sem sair na Portela. Mantinha meus amigos, mas não queria envolvimento, dadas as coisas que aconteciam.

Que tipo de coisa?

A gente tinha uma preocupação muito grande, nos anos 70, de ter um departamento cultural que cuidasse da história das escolas, especialmente da Portela. E não havia essa preocupação por parte de certos dirigentes, não tinham essa visão mais romântica, um pouco utópica, mas possível de ser feita. As escolas cresceram muito. Sem nenhum saudosismo, mas as coisas mudam. O carnaval de rua no Rio era dado como morto. Os grandes blocos – Bafo da Onça, Cacique, Vai como Pode – foram perdendo força. Falava-se que o carnaval estava só nas escolas. Mas hoje você tem centenas de blocos. O carnaval de rua voltou com força. Claro que diferente, porque a forma de brincar é outra, mas o povo vai encontrando a forma de brincar.

Os megablocos não assustam?

Claro, não posso me envolver em um bloco que tenha um milhão de pessoas.

Você ganhou um bloco em sua homenagem no ano passado, o Timoneiros da Viola. A tendência é de que os blocos cresçam demais. Está ocorrendo com eles o que aconteceu com as escolas?

O Timoneiros da Viola foi uma coisa muito legal. O grande problema dos blocos hoje é como sair. Tem milhares de pessoas e as ruas são as mesmas. Se você me perguntar, eu não sei qual vai ser o futuro do carnaval. Os bailes estão voltando e eram uma coisa muito esvaziada. Essa geração mais nova quer participar de alguma maneira e vai criando formas diferentes de manifestar essa alegria. O carnaval não vai acabar.

O que foi decisivo para seu retorno à Portela?

Em 1995, recebi um convite do pessoal da Portela, ia ter uma festa lá e eu fui. Para essa festa, convidaram uma pessoa que também já quase não frequentava a Portela, o Alberto Lonato, que eu tinha como grande amigo, um mestre. Ele tinha tido um problema de saúde, foi lá com uma dificuldade enorme, subiu no palco, pegou o microfone e disse: ‘Eu vim aqui para dizer para você voltar a desfilar na escola.’ A quadra estava superlotada. Dei um abraço nele e falei: ‘É quase uma ordem.’ Aí voltei a sair na escola.

Você foi a um ensaio da escola. Gostou?

A turma foi muito carinhosa comigo. Encontrei uma ou outra pessoa do meu tempo. Já é outro tempo, outro comportamento, você sente essa diferença. O pessoal mais jovem que participa curte isso. Gostaria que fosse um pouco diferente, que tivesse samba de quadra sendo cantado, que o barulho não fosse tão ensurdecedor. Você não consegue conversar com uma pessoa ao lado. Mas essa é a energia, a coisa de vibração. Antes o tempo era outro, havia preocupação maior com melodias, harmonias do samba, o coro da escola. Isso acabou. Hoje é o visual, a coisa plástica. Ainda tem figuras ligadas ao samba mais tradicional que estão em evidência, como o Monarco, da Portela, mas de uma certa forma quando se fala em carnaval e desfile de escola de samba se fala mais no carnavalesco, no visual. Os sambas e os autores dos sambas ficam meio em segundo plano.

Por que os sambas de quadra sumiram?

Houve um período em que os discos de sambas de enredo vendiam milhões de cópias. Foi num crescendo e as escolas passaram a escolher o samba bem antes do carnaval para (o disco) ser gravado, sair antes do Natal e vender. Os sambas de quadra foram perdendo importância dentro da escola. Tudo ficou concentrado no samba de enredo.

Qual foi o desfile inesquecível da Portela?

Tem dois. O desfile de 1970 tinha um samba de quadra, Foi um rio que passou em minha vida. Nós cantamos antes do desfile e toda a avenida cantou. A gente cantava para arrumar a escola. Quando chegou na Candelária, parou e começou o samba-enredo, Mistérios da Amazônia, que também foi muito cantado. Quando foi acabando, lá embaixo, sem a bateria parar, o pessoal já mudou o samba e foi cantando Foi um rio que passou em minha vida de novo. Outro foi o desfile que eu vi quando era adolescente, ainda na Avenida Rio Branco, e, quando a Portela passou, o povo saiu todo atrás gritando “já ganhou, já ganhou” São coisas que marcam muito. Era 1960 ou 61.

Assim como sambas-enredo ‘modernos’, superproduções e ensaios barulhentos, o patrocínio também é indispensável ao carnaval carioca?

Dadas as despesas que uma escola de samba enfrenta para botar um carnaval na rua, com todas essas exigências de grandes alegorias, bateria, de vestir determinados grupos. Com o número grande de pessoas que pagam para assistir aos ensaios, com o dinheiro da prefeitura, os enredos teriam de ser mais simples. Como a competição é muito grande, as escolas correm atrás de patrocínio e é claro que tem de ter uma troca. Isso é um problema. Não sei como resolve.

Você tem planos de gravar em breve?

Tem músicas que eu faço, pego o instrumento e toco. Continuo fazendo muitos shows. Agora mesmo no carnaval vou a Rio das Ostras no sábado, volto no mesmo dia. Domingo, a Portela é a última a desfilar e logo depois vou para Recife. Vou tocar segunda e terça em Recife, trabalhando, fazendo shows. Você vê como são as coisas (risos). Faço composições e vou guardando. Quando tiver oportunidade, vou gravar. Vamos ver se neste ano vem um disco.

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