Folia em Recife se destaca pela ‘transposição do Galo’

Estadão

09 Fevereiro 2013 | 11h43

Angela Lacerda, Recife – Despreocupado com o tamanho do bloco Galo da Madrugada – apontado como o maior do planeta pelo Guinness, livro dos recordes – e sem nenhuma intenção de disputar com o Bola Preta do Rio de Janeiro, o presidente da agremiação, Rômulo Meneses, estimava uma participação de 2,5 milhões de pessoas nos 36 desfiles. O bloco teve início às 9h deste sábado, 9, e deveria lotar as ruas de quatro bairros centrais da cidade até o seu final, previsto para as 19h.

“Nossa responsabilidade não é ser o maior, mas ser cada vez melhor”, disse ele, enquanto muita gente fantasiada e feliz se divertia desde cedo na concentração, no Forte das Cinco Pontas. Meneses reconhece que o Galo influenciou outros blocos no Rio e em São Paulo, mas da mesma forma, sofreu influência. “Também nos inspiramos em outras culturas”, afirmou. “Chamo isso de transposição do Galo”, disse ele, fazendo referência ao tema do desfile “O Rio São Francisco deságua no mar do Galo”.

“Como o São Francisco, que é uma correnteza de água, o Galo é uma correnteza de gente e também é fonte de energia e de renda”, comparou, ao convidar o Bola Preta a participar do desfile da agremiação. Para ele, toda essa “polêmica” é positiva: “só fortalece o carnaval de rua”. E a maioria dos foliões ainda prefere o suor e o aperto das ruas ao som do frevo, em detrimento do conforto dos camarotes VIPs que surgiram neste ano oferecendo ambiente climatizado e bandas próprias para animar seus convidados.

“Galo é aqui, é no chão, é no meio da massa, com essa energia maravilhosa”, afirmou Marcos Barbosa, que há mais de dez anos leva sua velha ou é levado por ela para o Galo. A velha é uma boneca que o carrega no estilo “o morto carregando o vivo”. Com ele concordam grupos fiéis ao Galo, que acompanham o bloco desde quando ele realmente fazia jus ao nome e ganhava as ruas do bairro de ao José de madrugada, junto com o raiar do sol.

Desta vez, Luiz Lapenda e cerca de 20 amigos foram de “Xoxa (uma galinha), o xodó do galo”. Com roupas inspiradas nas carrancas do Rio São Francisco, eles brincavam entre si e com outros foliões, provocando muitas risadas. Carregando uma placa “O galo sou eu”, ele dizia ser o rei do poleiro. Aos 73 anos, garantiu que a idade se referia da cabeça ao umbigo. Aposentado, trabalha hoje como “office boy e encanador de filho”.

Marta Pessoa, outra amante do Galo, preferiu ir de Rose, a namorada do ex-presidente Lula. “Enquanto durou, enquanto eu pude ficar incógnita, foi ótimo”, dizia na brincadeira. Trazia uma placa com a afirmação “Dame Rose indica; o cara é d’seu”, numa alusão a José Dirceu.

O Galo foi animado por 30 trios elétricos e 100 artistas, entre eles Fafá de Belém e Carlinhos Brown, Elba Ramalho e Nena Queiroga. Mas a estrela foi o frevo: além de patrimônio imaterial e cultural da humanidade, o dia do Galo coincidiu com o dia do frevo, 9 de fevereiro.

O ritmo dominou os cinco quilômetros do percurso do bloco, que foi fundado em 1978 por um grupo de amigos e famílias do bairro de São José para fazer renascer o carnaval de rua tradicional e espontâneo que se encontrava em decadência na época. A agremiação e sua proposta caíram no gosto dos foliões e só fez crescer desde então. Dele surgiu, em 1985, o lírico Bloco das Ilusões, criado pelas mulheres dos diretores da agremiação.